sexta-feira, 8 de abril de 2011

Tragédia e amor: será?


Quando assistimos à tragédia dos outros, mesmo que fisicamente distantes, nos sentimos ao mesmo tempo entristecidos e imobilizados pela dor alheia. É preciso compreender a dor do próximo – ainda que não na sua plenitude, por não ser possível - para que não nos escondamos comodamente nesse alheamento tão comum que cada dia mais nos afasta do outro. Sintoma desse distanciamento é o individualismo exacerbado a transformar homens em icebergs, cujos corações são como blocos de gelo.

O mundo parece se transformar cada dia mais numa espécie de matrix, onde a realidade mais se parece com uma abstração. No entanto, ainda que aparentemente etérea, essa mesma realidade nos assalta abruptamente com a dor, quando somos atingidos pessoalmente ou assistimos aparentemente “incólumes” ao desespero dos que efetivamente são dilacerados insuportavelmente pelo sofrimento. De certa forma o gelo derrete e então as réstias nos atingem, como farpas, cortando profundamente a carne.

Não há como dimensionar o sofrimento dos pais que perderam seus filhos tão abrupta e violentamente nesse terrível atentado perpetrado contra crianças inocentes por um lunático no bairro pobre de Realengo no Rio de Janeiro. A dor deles passa a ser a nossa dor, por mais frios e desumanos que essa sociedade hipócrita possa ter nos tornado. Não mais será possível ou razoável, depois desse fato, o “levantar de ombros”, como se não fizéssemos parte do mesmo agrupamento humano que necessita de proteção. Nos sentimos engolfados, somos absorvidos por essa tsunami de dor, choro e lamentações. Despertamos da tranqüila passividade quando a violência ultrapassa o limite do aceitável: estamos bem despertos.


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Há um belíssimo discurso cristão que estamos sempre a observar por todos os lados – e inclusive somos participantes dele. Por aqui, neste mundinho ‘abstrato’ virtual, personalidades de todos os matizes pululam alegremente: uns que nada dizem, outros que muito dizem e pouco se aproveita; uns que dizem muito, mas nada amam; outros ainda que amam e pouco dizem. E há aqueles que dizem amar, sabem até dizer muito bem as coisas, mas o seu é um estranho amor cristão. Aliás, dizer bem nem sempre é salutar por si só, especialmente quando o discurso é vazio, por não se traduzir em ações para o crescimento do Reino. As palavras são belas, há profundidade no discurso; a construção estética é admirável, mas junto com tudo, há muita fúria, xingamento. O que mais se ouve é: tolo, estulto, imbecil, tonto, etc. É o "amor" traduzido cruamente em puro desprezo.

E há, por fim, os que amam de verdade, demonstrando esse amor cristão na sua conduta cotidiana, aqui mesmo, nesse mundo abstrato. Há muitas formas de reconhecê-los, dentre elas não se associam arrogância, histrionismo, gritaria, superioridade. Quero fazer parte deste seleto grupo, deixando de lado a truculência nas palavras, adquirindo mansidão e aprendendo a ouvir. Asseguro que estou percorrendo a “trilha”, em lento processo de aprendizado.


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Em momentos como o que agora estamos vivendo, quando a loucura bate às portas de tantas famílias ceifando seus filhos, concluo que é mesmo preciso aprender a amar, tal como Cristo ensinou. Necessitamos fazer do amor mandamento perpétuo, olhando para os nossos semelhantes com afeição genuína. Mister que façamos a tradução do discurso em ações diárias, sob pena de as palavras se diluírem ao vento, perdendo-se nas brumas de uma existência hipócrita e sem significado. Verdadeiramente há culpa em nossos olhos, quando as lágrimas de outros tantos olhos vertem a sua dor incontida e contínua. A reflexão tem lugar, Cristo diz para que estendamos as nossas mãos para o próximo, mesmo que seja para chorar com ele, dividir a dor.

Amor e tragédia se encontram. E então, ao final, dirigimos as nossas preces ao Criador glorificando e dizendo: faça-me entender que o Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do SENHOR!

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sábado, 2 de abril de 2011

Um (O) evangelho nada "Feliciano"



Não é de hoje que o evangelicalismo vem em um crescendo na tentativa de transformar e deturpar a verdade eterna, ao mesmo tempo em que anuncia um "novo evangelho", aquele que Paulo define como anátema. Há um grupo em franca expansão a pregar este "outro evangelho", que de Evangelho nada tem.

Quando pensamos que já vivenciamos tudo, todas as bizarrices possíveis e imagináveis, eis que nos deparamos com algo inédito. A turba enlouquecida evangelical consegue mais uma vez nos surpreender com o seu novo "astro", o ilustre pastor Marco Feliciano. Aliás, pastor e deputado. Ou melhor, pastor, místico e deputado. Se já conhecíamos a inigualável e inconfundível "verve" do rapaz da chapinha, quando, por exemplo, do lançamento da "unção do galinheiro", passamos a ver agora o seu lado teológico, quando o "doutor" se arvora a dar aulas no twitter.

Não bastasse aquela unção a que me referi em epígrafe, expondo galos e galinhas "incautos" a profetizarem para o "menino da vila tatu" - nomenclatura dada pelo Leonardo do pulpitocristao - somos então abruptamente aquinhoados com a sua profunda veia teológica, quando o "virtuose" se coloca em visibilidade no twitter ao discorrer sobre a maldição de Cam lançada sobre Canaã no episódio da bebedeira de Noé. Com essa premissa, o nobre deputado pastor vinculou o fato à maldição que supostamente recai sobre os africanos desde o alvorecer da nova civilização pós-diluviana. A estultícia do deputado pastor causa espanto. A capacidade de caminhar alegremente rumo ao abismo é única.

Contudo, se a afirmação em si já é de uma ignorância teológica ímpar, maior ainda é a volúpia com que o Marco Feliciano se lança a ofender os seus detratores no twitter, com toda espécie de xingamentos e baixarias, bem a seu gosto e exatamente contrário à mansidão que o verdadeiro Evangelho nos ensina.

E são estes "baluartes" os nossos "representantes". O tal pastor ainda nos "representa" duas vezes, no campo político representativo e no campo "evangélico", o que me faz cada vez mais repudiar esse adjetivo: sou cristão.

Quanto ao erro teológico crasso cometido pelo pastor deputado, me absterei de aqui me pronunciar e indico o ótimo texto da lavra do Reverendo Helder Nozima, colunista do 5calvinistas, explicando todas as idiossincrasias cometidas pelo luminar, através do texto com o tema de "uma teologia infeliciana".

Com profunda tristeza eu e tantos outros cristãos observamos tais acontecimentos e nos sentimos ultrajados, pois de certa forma somos vinculados pelo Evangelho que todos dizemos crer. Somos colocados no mesmo balaio por tantos críticos que têm os evangélicos na conta de aproveitadores - e não sem razão!

Entretanto, a falta de bom senso chega ao paroxismo quando um pastor, ainda que heterodoxo e não-convencional como o Marco Feliciano, passa a proferir xingamentos públicos no twitter - talvez a maior vitrine que se tem hoje, dada a rapidez com que a informação é transmitida e retransmitida.

Eu pelo menos sinto consolação ao lembrar que não somos nós (cristãos) responsáveis por separar o joio do trigo, mas o anjo do Senhor quando da ceifa. Até lá resta-nos conviver com a vergonha diária, colocada nos meios de comunicação de massa por tantos outros luminares do naipe do Feliciano. Enquanto isso, o contraponto é pregar o Evangelho Verdadeiro, já que não somos nós a convencer, mas o Espírito Santo, via da Palavra cortante.

Honra e glória ao Senhor Deus Todo Poderoso!


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terça-feira, 29 de março de 2011

Cessacionismo, carisma, novo calvinismo e a "crítica"



Queridos irmãos e amigos que leem este blog. Eis-me aqui novamente a falar do que muito tenho falado ultimamente. Contudo, penso ser necessário esclarecer algumas posições. Vamos lá, sigamos a ordem do tema. Falemos então de cessacionismo. Não, eu não sou cessacionista. E também não sou carismático, posto que o "adjetivo", ou melhor, este rótulo me causa verdadeira urticária.

Não pretendo lançar nenhuma tese sobre o assunto, uma vez que sequer tenho a qualificação necessária: nem teólogo, nem filósofo e nem mesmo pretensioso. Sou apenas um cristão que aprecia sobremaneira as Escrituras sagradas e tenta compreendê-las, ainda que limitadamente. Feita a ressalva, vale dizer que não sou cessacionista porque imagino que Deus usa providencialmente a sua criação inteira. E providencialmente Deus usa pessoas, em especial aquelas que lhe são caras, que são amadas desde a fundação do mundo.

Outrora aqui mesmo já disse e agora repito: não creio em profetas, atualmente, como Jeremias, Ezequiel, Habacuque, Joel, etc. Mas creio que Deus pode usar alguém para dizer algo a outrem e que tal palavra faça parte dos seus desígnios eternos. Não sei se a tal coisa pode se dar o nome de profecia. Acredito que a pessoa usada por Deus para um momento específico e particular sequer saiba que está sendo instrumento d'Ele. Aqueles, porém, que ainda hoje se intitulam de profetas, a mim estão mais para charlatões.

Em linguas estranhas também descreio. Mas acho possível que o Evangelho possa ser pregado entre pessoas de diferentes idiomas e ainda assim ser compreendido, mesmo que os interlocutores não conheçam os idiomas entre si falados. A Palavra, a meu ver, vai além dessas limitações linguísticas. Se a isso se der o nome de dom de línguas, creio então neste dom.

A tais dons se convencionou denominar de miraculosos ou extraordinários - não que a nomenclatura venha ao caso, mas parece que para alguns sim.

Com relação ao "Novo Calvinismo" pouco sei. Apenas e tão somente escrevi um pequeno texto sem grandes ou nenhuma pretensão, na esteira de outros anteriormente escritos (aqui). Pelo jeito, ao escrevê-lo, cometi um grande "pecado", haja vista algumas reações.

E a crítica. Há críticos e críticos. Há aqueles que criticam por não concordarem com o criticado , há ainda os que não compreendem o que foi escrito e aqueles que apenas criticam. Sempre. Criticam, por exemplo, se concordo com o "novo", mas também criticam se eu discordo. Estes tais criticam porque estão acima de tudo e de todos: são mais inteligentes, perspicazes, sábios; denodados cristãos.

Esses seres policialescos acham-se no direito de criticar, mas sem dar nomes. Talvez assim possam atingir a todos que não participam da sua confraria, da sua tribo, do seu grupo "acadêmico", da "rodinha do brilho fulgurante". E eis que criam as suas "teses", os seus arrazoados, os seus "decretos" - e os seus devaneios.

Eu apenas estou aqui para tentar compreender, sem aspirar reconhecimento algum. Porém, não me contento com prefixos do tipo "novo" ou "velho", tampouco limito-me à superficialidade dos termos.

A tais ombudsman da confraria reformada peço, humildemente: deixem-me escrever. E se eu estiver errado, me ensinem. Aliás, estou aqui para aprender com os sábios. Se a crítica, todavia, não é direcionada a mim, nem a "A" ou "B", deem o nome do criticado para que não sejam suscitadas dúvidas.

Eu porém, quando critico, prefiro dar nomes.

Não sou tão velho a ponto de ser ultrapassado e nem tão novo que não possa compreender os enunciados. Sou apenas um amante do Evangelho, e este, coincidentemente, foi tão bem compreendido e explicado por calvino. Assim, sou calvinista - prescindindo de qualquer prefixo ou rótulo do tipo "novo" ou "velho".

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sexta-feira, 25 de março de 2011

Uma igreja carismática?


É possível que o tema colocado neste post possa despertar a curiosidade de alguns, especialmente dos protestantes, sejam eles pentecostais ou tradicionais - e aí permito-me não usar a nomenclatura "evangélico".

Muito se debate sobre o vocábulo carisma e o seu derivado carismático. Igrejas se denominam carismáticas ou não. Membros de seitas, igrejas, movimentos, igualmente defendem uma ou outra postura no que se refere aos dons espirituais.

De um lado temos as igrejas históricas e tradicionais como, por exemplo, a presbiteriana e batista a se definirem mais pela pregação da Palavra, dando pouca ênfase aos dons miraculosos ou extraordinários citados pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12:8-10, e, de outro lado, aparecem as igrejas pentecostais e neopentecostais dando forte enfoque a tais dons.

Porém, a indagação que ecoa é: é necessário que a igreja seja carismática e que os crentes também o sejam? A meu ver, depende. E a casuística toda é sobre o real significado desse carisma.

É possível, por um lado, afirmar que a igreja é carismática, tendo em vista a figura de Cristo a exercer forte carisma sobre as pessoas, os crentes em geral, por vários motivos e circunstâncias, uns bons e outros nem tanto, especialmente se olhamos para o evangelicalismo atual com as suas propostas para lá de espúrias. Por outro lado, causa polêmica e espécie entre os próprios evangélicos a questão do carisma vinculado aos dons espirituais miraculosos, tais as profecias, curas, línguas 'estranhas' e interpretação. Não que não haja respaldo escriturístico, pois, conforme citamos no início, há (1 Coríntios 12:8-10). A questão que emerge é sobre a manifestação dos ditos dons na igreja, a causar a divisão bem definida entre as igrejas tradicionais/históricas e as pentecostais e neo.

É notório que o movimento pentecostal surgiu no início do século XX em decorrência da grande ênfase nos dons miraculosos, fundados em uma atuação sobrenatural do Espírito Santo , cuja cognição se dá pela manifestação, sobretudo, das línguas estranhas. Nessa esteira mística, seguiram-se as novas profecias , curas e revelações de toda ordem. E é este o aspecto mais conhecido e usual do termo carismático. Logo, carismáticos são aqueles que defendem a manifestação de tais dons revelados no segundo batismo (segundo entendimento corrente).

Pessoalmente eu não tenho nada contra os movimentos carismáticos, desde que delimitados em seu espaço. Todas as pessoas devem ter liberdade para cultuar segundo as suas crenças, ainda que sejam rituais não bíblicos, como vemos em muitos movimentos e seitas neopentecostais. A liberdade de culto determinada pela própria Constituição Federal defende práticas religiosas de todos os matizes, até as mais bizarras.

Sou contra violentar princípios e doutrinas abraçados pela denominação, uma vez que a liberdade de culto a que fiz referência em epígrafe, impõe igualmente obrigações. Desde que eu me filie a determinada igreja, vinculada a uma denominação, faço um pacto de aceitação com os seus princípios. Assim, se tradicional/histórica, a exemplo da Igreja Presbiteriana, não haverá a ênfase nos dons miraculosos , tais as línguas estranhas, o segundo batismo, curas e profecias. E quem lá se filia faz um compromisso moral de defender os princípios constantes da declaração de fé.

A desonestidade, a meu ver, consiste em que um membro, um pastor, ou líder, se rebele dentro do movimento impondo o que lhe é estranho. Seja negar os dons miraculosos no seio do movimento de viés pentecostal, ou incluí-los da maneira como são entendidos pelo movimento pentecostal dentro da igreja histórica/ tradicional. Os desentendimentos, desvios doutrinários e divisões surgem daí. Portanto, não consigo vislumbrar qualquer razão nesses líderes, ou em suas ações, a não ser a mais cristalina desonestidade.

Há não muito tempo eu mesmo vivenciei algo assim, quando membro de uma Igreja Batista. Nascido e criado naquela denominação tradicional, vi a igreja ser tragada por todo tipo de bizarrice, especialmente as revelações, línguas estranhas e cair no espírito. E vi a igreja ser implodida, exatamente pela desonestidade dos seus líderes que violentaram os princípios historicamente abraçados pela denominação. Hoje sou presbiteriano. Serei presbiteriano enquanto ver respeitada a declaração de fé da denominação; enquanto ela se mantiver dentro dos princípios bíblicos que eu entendo corretos, à semelhança do que prega.

Outrossim, repito: respeito todas as crenças, amo os meus irmãos pentecostais, arminianos ou não, embora sendo presbiteriano. Mas penso que cada um deve ficar dentro dos seus limites.

Vale lembrar que não sou cessacionista. Sou continuísta, creio nos dons, mas não exatamente como são apregoados pela maioria dos carismáticos.

E que todos vivamos em paz.

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domingo, 20 de março de 2011

Lembranças , lamentos e um novo dia


L


A vida é boa, bela e difícil. Assim como contraditórios somos todos nós. Ora somos bons, solidários e generosos e em outros momentos deixamos aflorar sentimentos dos quais não nos orgulhamos, fazendo-nos lembrar que a natureza pecaminosa está ali, latente, aparentemente "morta", mas bem viva, pronta a aflorar.

Quando acordamos para a vida cristã, quando somos efetivamente tocados por Deus por intermédio da sua maravilhosa graça, adquirimos a capacidade de enxergar os nossos defeitos e somos então confrontados com os nossos pecados, mesmo os mais íntimos. As nossas máscaras cuidadosamente desenhadas e meticulosamente cultivadas acabam por serem retiradas, instante em que nos deparamos com as nossas verdadeiras feições. E a transformação se inicia, a redesenhar uma nova criatura, a ser reconhecida pelo Eterno como filho adotivo em Cristo Jesus.

Entretanto, a contradição ainda se faz presente em nosso ser, porque, ainda que em processo contínuo de redenção, depois de alcançados pela graça salvadora, continuamos longe da perfeição. Ao invés de andarmos firmes e eretos, caminhamos ainda recalcitrantes, meio que trôpegos, caindo e levantando. Somos lembrados, com isso, que a força não está em nós mesmos, não é inerente ao nosso ser, mas emprestada daquEle que nos criou e depois nos salvou. Estamos no longo processo de reconstrução, cujo Construtor nos redesenha da forma que melhor lhe apraz. O barro vai sendo moldado conforme a vontade do Oleiro.

Em meio à difícil caminhada ganhamos e perdemos. Caímos e nos levantamos. Por vezes cambaleantes, outras novamente firmes. A promessa porém, a certeza maior e mais significativa é que alcançaremos a reta final e não ficaremos caídos pelo caminho. Isto porque somos alimentados pelo amor daquEle que nos salvou, introduzindo -nos esse combustível e alimento a nos impelir para a frente, sempre para frente, sem retroceder jamais...

Ganhamos, ao longo da caminhada, inúmeros irmãos, que se transformam em verdadeiros amigos. E eis que a trilha, antes palmilhada penosamente só, se enche de mais e mais pessoas, em cuja comunhão é possível enxergar a face de Cristo. À sombra do Salvador e por ele embalados entoamos, todos juntos, hinos de louvor e glória, e ação de graças.

Contudo, em algumas dessas vezes, enquanto caminhamos juntos , tentando aprender mais do Eterno, deixamos que a outra sombra se transforme em treva densa e somos eventualmente tragados. Mas a certeza é que seremos ajudados, pois as mãos que nos foram estendidas outrora ainda continuam a se oferecer, em constante auxílio.

É doloroso perder a amizade de irmãos que se transformaram em amigos, porque deixamos aquela sombra tragar a beleza do relacionamento de outrora; a camaradagem erigida em longas e aprazíveis conversas. A má compreensão dos motivos do outro, o ser incompreendido nos próprios motivos; a conversa mal explicada, a convicção duramente afirmada; tudo impelindo para o rompimento. Junto, vem a tristeza e a incapacidade de recuperar algo perdido, porque não é possível identificar o motivo específico a quebrar a confiança e a levar à tristeza e ao distanciamento final.

Resta-nos agora usar a experiência que adquirimos ao longo da caminhada com o Mestre. O novo "ofício" aprendido nos capacita a reconstruir o que foi destruído. Construímos pontes sobre as valas abertas a fim de que o terreno seja religado, fazendo com que o fluxo seja novamente restabelecido. E o fluxo - que corre sob as pontes - é contínuo e calmo, formado por límpidas águas que fluem de um rio. E esse rio é Cristo.

A certeza final e imorredoura é que há tempo para tudo debaixo do sol: tempo para rir e tempo para chorar. Tempo para construir e tempo para reconstruir o que as intempéries destruíram.

Honra e glória a Cristo, e que estejamos aptos a aprender com ele hoje e eternamente.


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quinta-feira, 17 de março de 2011

O "velho" e o "novo" calvinismo



Um assunto tem chamado a minha atenção ultimamente, mas confesso não ter uma profunda compreensão dele: o chamado "novo calvinismo". Contudo, lendo um ótimo texto do Allen Porto no blog 5calvinistas resolvi dar um pequeno mergulho nesse movimento, até mesmo para ter capacidade para discuti-lo, a fim de rechaçá-lo ou abraçá-lo.

Não sou avesso ao "novo" como alguns o são. Não gosto de nutrir preconceitos sobre qualquer coisa e evito ter ideias pré-concebidas, que, nas mais das vezes, leva ao erro grosseiro induzido pela pressa. E é com este pensamento "liberal" que procuro entender o novo calvinismo, tendo como modelo um dos seus idealizadores, o Pr. Mark Driscoll.

Embora, como afirmei em epígrafe, não ser preconceituoso, confesso que a figura do Pastor Mark Driscoll causou em mim um certo impacto negativo, não pela teologia professada, mas pelo espalhafato da sua vestimenta - e aí tenho de reconhecer que o símbolo nem sempre define inteiramente a qualidade do objeto, da coisa ou mesmo da pessoa. Aquelas roupas descoladas, calças jeans rasgadas e desfiadas, camisetas coladinhas e decotadas, sei lá porque, me faziam imaginá-lo a la Marco Feliciano - e olha que eu tenho acompanhado ótimos blogs cristãos a defendê-lo.

Outra questão que causa um certo arrepio, não somente ligado à pessoa do Pastor Mark Driscoll é saber que o novo calvinismo, de certa forma, tem o seu berço na igreja emergente, esta, com cores pós-modernas. Entretanto, há de se reconhecer que tanto o Driscoll, quanto o movimento do novo calvinismo como um todo romperam com os emergentes, na medida em que estes, rumavam para o abandono da ortodoxia.

Obviamente, pretendo ler mais sobre esse novo calvinismo e ter substrato para compreendê-lo. É cedo ainda para fazer uma análise definitiva, que se mostraria apressada e até mesmo leviana. Porém, não posso deixar de expor um medo: o novo calvinismo não busca uma caricatura, ou estereótipo moderno para "alcançar" um nicho da sociedade, a juventude?

O marketing agressivo do evangelicalismo atual causa asco, o que explica o temor que tenho a respeito de um movimento que, de certa forma, pode estar associado a um marketing, ou estratégia de "crescimento", cuja direção pode ser que o novo calvinismo esteja tomando ou venha a tomar. Repito, é apenas o temor de alguém que ainda não compreende completamente o prefixo "novo" aplicado ao velho, honesto, bíblico e bom calvinismo...

Uma das características do Pastor MarK Driscoll - e me desculpem por citá-lo tanto, vinculando-o ao novo calvinismo - é afirmar-se culturalmente liberal, mas teologicamente conservador, como a sua própria igreja. E, de fato, as linhas dele são mesmo conservadoras, trazidas lá da 'old School', como a inerrância das escrituras, a solidez litúrgica no que se refere ao conservadorismo bíblico, etc.

Como eu disse no início, prefiro aguardar os acontecimentos a longo prazo. Olhar e avaliar, pois, como dizem os mineiros, "o tempo é que cura queijo". Eis que o tempo então mostrará se o "novo" se manterá com a pureza escriturística que se manteve o "velho".

Não há dúvida que o Evangelho, por ser transcultural (termo apreciado por eles), pode ser pregado de várias formas, desde que não descaia para a irreverência. É difícil aceitar um culto irreverente, pelo menos para mim. Nesse ponto, lembro-me do posicionamento de um pastor batista a quem admiro e aprecio, o Pastor Izaltino Gomes Colho, que, na sua igreja, não admite "gorros", "bonés" e coisas semelhantes, especialmente com aqueles jovens envolvidos com a música. Eu também não gosto de gorros e bonés a saltitarem no púlpito. Pela ótica do evangelicalismo atual, devo ser considerado chato, retrógrado e quadrado. Pois que seja.

Enfim, se o prefixo "novo" não significar rompimento com a verdade escriturística, irreverência e caos; foco demasiado em crescimento denominacional e ecletismo irracional, que venha o novo calvinismo.



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quinta-feira, 10 de março de 2011

Sobre teonomia e antinomistas



A discussão do momento nos blogs cristãos reformados é sobre uma certa "antinomia" erigida por alguns duros defensores dessa "facção" teológica, a combater inimigos cristãos imaginários, os tais "moinhos de vento".

Fundamentalismo é coisa que faz tremer porque nos remete aos muçulmanos e à sua sharia. O fundamentalismo, entretanto, quando remetido à firme observância dos preceitos bíblicos e à ortodoxia, é salutar - pelo menos na visão cristã, pois é evidente que um budista, maoísta ou ateu não terão a mesma visão que eu tenho. Contudo, costumo temer qualquer posição radical e extremista, ainda que bíblica, já que nas mais das vezes desagua em um oceano de intolerância.

Radicalismo e intolerância são os dois ingredientes a temperar os textos teonomistas que tenho lido. Não que eu não concorde com a teonomia, naquilo que se coaduna com a Lei de Deus, com a sua vontade determinante expressa na Bíblia. A discordância capital se refere a um termo cunhado por certas pessoas, a um rótulo capaz de implodir a fé daqueles que não aceitam o tal rótulo (ou pelo menos é esta a tentativa).

Discordo, repito, com a "teonomia" a significar a plena observância da Lei Mosaica como regramento e código judicial para a atualidade. Acho a ideia simplista, o raciocínio falho e o julgamento (dos teonomistas) urdido contra os seus "detratores" , oblíquo e de uma obtusidade alarmante.

Basta observar que a denúncia contra aqueles que discordam dessa tal visão teonomista proveniente do rótulo, agora erigida a verdade absoluta e inconteste, é de que são (somos) antinomistas. Já essa "qualidade" avança ao ponto de considerar os opositores (nós) como refratários à Lei de Deus. O fato de ter um entendimento contrário àquele que se cunhou como verdadeiro é o bastante para que os seus defensores sejam peremptoriamente defenestrados do solo sagrado da teologia reformada. E mais, por último, os que resistem à tal teonomia por eles engendrada estão mesmo relegados à triste condição de incrédulos.

A acusação maior é que resistimos à ética cristã proveniente da Lei Moral e por isso abraçamos uma ideia libertária: nos negamos ao pleno Senhorio do Criador evidenciado pela "Lei Mosaica". Somos quase párias, ou um arremedo de cristãos. É a ideia que subjaz inclusive em textos de irmãos queridos que tenho lido nos últimos dias. Não há argumento capaz de convencer os assim denominados "teonomistas" no sentido de que não nos negamos ao padrão ético proveniente da Lei Moral que se extrai da Bíblia, antes "nos alegramos na Lei do Senhor". E eis que somos tachados pejorativamente de antinomistas, cujo sentido (menor) indica aquele grupo ou pessoa contrário à Lei de Deus.

Há algo errado nessa luta quixotesca: eu não sou nem incrédulo e tampouco resisto à Lei de Deus, mas defendo-a, luto por ela, remo contra a maré de um sistema podre que rege essa sociedade caótica e pobre de valores cristãos verdadeiros. Logo, não sou antinomista coisa nenhuma! Não aceito o rótulo e nego-me a considerar a afirmação como substancial ou propositiva, mas pura estultícia. Tal proceder faz os defensores xiitas da teonomia retrocederem à bruma da insensatez, que repousa sobre a mais densa ignorância.

Eu não desejo fugir ao cumprimento da Lei moral, dos preceitos éticos condensados na Bíblia, tampouco desejo ser escravizado pelos mesmos preceitos, tendo a ótica de que não serei julgado pela dureza da mesma lei. Paira em meu humilde entendimento a certeza de que as leis que temos a dirimir os conflitos deste mundo em cada nação ou Estado estão sob a égide de Deus e que os governantes igualmente estão, o que nos obriga a obedecê-los por ordem do próprio Cristo (ainda que essa lei não seja exatamente como a de Deus). Portanto, ao rejeitar essa tal teonomia eu não estou a rejeitar a Lei de Deus, que fique bem claro.

Ainda hoje li uma citação interessante, a qual desejo transcrever abaixo que, embora não tendo correlação direta com o assunto em tela, retrata algo sobre a obediência à norma (Lei):

"...Não há falta ou mal na mera ausência que consiste na atual consideração da norma, pois a alma não está obrigada, nem disto é capaz, constantemente, no ato, de levar a norma em consideração. O que é requerida da alma não é que deva sempre observar a norma ou ter a norma constante na mente, mas que deva 'produzir um ato' enquanto considera a norma. Ora, no momento metafísico que estamos analisando, aqui, ainda não existe um ato produzido; há meramente uma ausência de consideração da norma, e será apenas no ato que será produzido, em termos desta ausência, que o mal existirá. Reside, aí, um ponto de doutrina extremamente sutil, de importância capital. Antes do ato ato moral, antes do 'bonum debitum', o 'devido bem' que produz a qualidade do ato e cuja ausência é uma privação e um mal, há uma condição metafísica do ato moral, o qual, tomado em si mesmo, não é um bem devido, e a ausência dele, por conseguinte, não será privação nem mal, mas uma pura e simples negação (ausência de um bem que não é devido), e tal condição metafísica é uma livre condição." [1]

De tal maneira que não fazemos o bem por imposição da norma, mas porque a graça oriunda do Criador nos habilita a fazer o bem. Daí a considerar, como Tiago, que a fé deve ser acompanhada das obras, mas não pela força coercitiva da norma em si mesma (que é apenas uma abstração), mas pela habilitação que nos é titulada, por assim dizer, pela graça. E é nesse momento que os teonomistas nos acusam de confundir Lei, justificação e graça. A obliquidade do entendimento, a falta de capacidade analítica é que os leva a tal antítese, especificamente ao nos rotular de antinomistas em razão da sua "teonomia".

Por enquanto, fico por aqui. Há muito a dizer, mas os textos longos cansam, especialmente neste espaço.


[1] Maritain , Jacques, St. Thomas and the Problem of Evil (Milwaukee, 1942), pag. 06, extraído do livro "Pastor Reformado e o Pensamento Moderno", Van Til, Cornelius, 1ª edição, 2010, Ed. Cultura Cristã, pag. 97.

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sobre teonomia, Lei e Graça (II)




Consoante o que foi afirmado no último texto, é mesmo espinhoso dialogar com os “teonomistas”, a uma, porque eles não conseguem trocar idéias, uma vez que as suas peremptórias intervenções se pautam pela unilateralidade, e, a duas, por se sentirem investidos de algo como uma “delegação divina” , especificamente no sentido de trazerem de volta a “Lei mosaica” com a sua aplicação literal às relações humanas atuais. A ideologia hermética, o “purismo” me remetem a outro tipo de fanatismo, como aquele que levou a sociedade alemã a apoiar o homenzinho do bigode ridículo, ou, no sentido religioso, os muçulmanos adeptos do Islã. O fato é que sempre há um motivo, por mais estapafúrdio que seja, a direcionar pessoas a cometerem danosos atos em nome da “fé” – ou daquilo que acreditam ser a vontade de Deus.

Não dou à teonomia o sentido de heresia que os seus defensores querem me impor, ou impor a todos aqueles que pensam diversamente deles. Sou teonomista no sentido de reconhecer o governo de Deus sobre a humanidade, acima de toda a criação, exatamente pela sua condição de transcendência. O Criador certamente governa, sustenta e mantém o universo, criado por Ele unicamente através da sua vontade e do seu comando (haja luz...).

Quero crer que a “Lei de Deus” vai muito além da lei mosaica. Enxergo essa “Lei” nas relações humanas travadas entre santos e ímpios, em toda a providência sabiamente usada pelo Santíssimo em direção à plena e cabal execução do seu decreto eterno. Essa “Lei”, a meu ver, está contida nas mais ínfimas e “insignificantes” ações humanas até às mais sublimes; desde os grandes feitos registrados por brilhantes personalidades da História universal até a primeira palavra pronunciada por uma criança em tenra idade. O império de Deus está sobre este mundo como um amálgama, vinculando pessoas, coisas, eventos, catástrofes, enfermidades, dores, alegrias, vitórias, derrotas, justiça, injustiça, etc.

A pequena semente quase microscópica na sua admirável transformação a germinar e a tornar-se árvore, a flor a desabrochar, o ritmado flanar das asas do pássaro em voo, a suave brisa refrescante que sopra sem “motivo”, as ondas do mar em seu eterno movimento de ir e vir, tudo remete à “Lei de Deus”. Aos “teonomistas”, essa minha digressão parecerá despropositada, bem sei.

A capacidade do homem em se organizar política e socialmente, bem como a autocensura que se impõe por intermédio da criação de leis capazes de lhe arrefecer a maldade e garantir-lhe direitos, obrigações e restrições à sua liberdade são a prova cabal de que o Altíssimo influencia toda a sua criação, impondo a sua “Lei”, ainda que não o faça “diretamente” pela via da aplicação da lei mosaica, como querem os “teonomistas”. Dou, pois, à teonomia, um sentido muito mais amplo.

Imagino que as leis que criamos por intermédio dos nossos representantes nas Câmaras, Assembléias, governos - democráticos ou não - são uma extensão da “Lei de Deus”, providencialmente usadas por Ele em prol dos seus desígnios secretos e eternos. Não concordo que a “lei mosaica” seja a única expressão da Lei de Deus, ou que tenha permanecido imutável, estagnada, tal como ditada a Moisés no deserto. Certamente que há mesmo uma progressividade da revelação.

Para a consecução da graça comum, quero crer, Deus usa pessoas, coisas e ações; usa as leis dos homens, influenciando nas suas vontades, dirigindo-lhes os “passos” a fim de garantir o resultado eternamente decretado. Nesse diapasão, afiançar a exclusividade da lei mosaica, ou lutar para a sua aplicação única, é querer impor a Deus, por via transversa, a vontade do próprio homem. É semelhante a restringir a ação de Deus ao próprio “achismo” dos defensores ferrenhos da teonomia.

Com temor e tremor eu jamais me arriscaria a afirmar a exclusividade da lei mosaica. E, mais do que isso, crendo na progressividade da revelação, no dinamismo que o próprio Deus infundiu ao homem e à sua criação não posso aceitar o regramento literal da lei mosaica para a atualidade, pois não creio em um Deus anacrônico. Creio, ao contrário, no Deus que move a sua criação ordenadamente, com criterioso cuidado, infundindo-lhe conhecimento e vontade para melhorar e adequar o regramento inicial, ainda que resguardando o modelo, o princípio moral e ético.

Afora a graça comum, Deus toca alguns, regenerando-os, transformando-os, fazendo com que “nasçam de novo”. E são estes que terão a incumbência de “salgar a terra” através da Luz de Cristo. Creio na influência dos regenerados a testemunhar Cristo muito mais do que a imposição da lei mosaica por si só. A influência benéfica desse “remanescente fiel que não dobrou os joelhos a baal” é que fará a diferença e não as pedras dos apedrejadores. Ademais, temos leis e temos Deus no comando das mentes daqueles que pensam o processo legislativo. Vale dizer que Deus tem vontades imediata e mediata, sem que a providência possa mudar o seu decreto eterno.

Enfim, sem entrar no mérito de graça e lei e reconhecendo que os “teonomistas” dão mesmo um significado diferente a ambos, ainda assim fico com a graça, exclusivamente para ser sal da terra, pregando o Evangelho de Cristo e influenciando a muitos, e, com isso, reafirmando os valores cristãos a toda criatura.

Aos que querem impor a Lei mosaica, felicidades.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobre teonomia, lei e graça


Vejo com certo temor algumas pessoas no meio reformado escrevendo sobre teonomia, fazendo-o com grande empenho e certa agressividade, não raras vezes. A minha posição, embora silenciosa, tem sido diametralmente contrária à ideia da teonomia tal como os seus defensores têm pregado por aí. Falo não somente dos blogueiros, como também de alguns autores renomados. Não os li e nem pretendo lê-los. Sei o que é teonomia e do que se trata, suficientemente para ser contrário aos seus argumentos. Aliás, confesso, os tais argumentos me cansam.

Afirmei em epígrafe o meu silêncio nada recalcitrante, uma vez que a minha posição é clara e conhecida. O silêncio até o momento se deu em razão de um certo cansaço das longas discussões e de extensos arrazoados recheados de pouca ou nenhuma substância capaz de "destronar" essa minha convicção contrária.

São muitos os textos bíblicos que me convencem a cada vez mais distanciar-me da ideia a respeito de uma teonomia que defende a retomada da lei mosaica, ou simplesmente da "Lei", para ser aplicada à sociedade como um todo. A mim, cheira como puríssimo e "refinado" legalismo.

Se a lei é "boa" - e é , pelo menos sob o ponto de vista ético e moral - daí a instituí-la como força coercitiva estatal demanda hermenêutica completamente torta e tortuosa. Logo, teimo em contradizer os defensores da tal teonomia acusando-os de superficiais em sua "interpretação" (sei que estou correndo enorme risco ao fazer tal afirmação).

Concordo com os teonomistas até um certo limite: a Lei foi mesmo instituída por Deus e é boa, exatamente ao convencer-nos do juízo e do pecado. Parafraseando Paulo em Romanos 2, não fosse a Lei, o pecado nem mesmo existiria, uma vez que não haveria preceitos a evidenciá-lo:
Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados (Romanos 2:12).

Com efeito, é exatamente neste ponto que reside a incongruência do raciocínio dos teonomistas, uma vez que a Lei é o instrumento único e insubstituível para evidenciar o pecado e tornar culpáveis os que serão julgados sob a sua pesada égide. Quanto a nós, justos, o somos não por cumprirmos à risca a Lei, o que nos é completamente impossível, mas porque, à parte dos nossos tantos pecados e iniquidades, fomos justificados pela obra redentora de Cristo na cruz do calvário. Logo, a Lei não mais nos escravizará, conforme está escrito:

Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina (1 Timóteo 1:8-10).

A raciocinar com os teonomistas, a Lei, então trazida para a esfera estatal institucionalmente, forçará justos e justificados, ímpios e crentes, eleitos e réprobos. Novamente será estabelecida a velha aliança e voltaremos aos rituais e aos holocaustos; verteremos sangue de bois e ovelhas nos novos altares sacrificiais. Enfim, ainda que os argumentos dos teonomistas sejam aparentemente alicerçados na Palavra, o legalismo por eles defendido fará submergir a graça.

A pergunta que teima em aflorar é: por que a sanha em restabelecer a Lei quando se tem a graça? Ora, se o maior bem que o cristão possui é a salvação, trazida pela graça, qual a necessidade da Lei? Os teonomistas responderiam que a Lei traria "equilíbrio" à sociedade, que seria " a Lei de Deus" aplicada ao homem, etc, etc. Tantos outros argumentos surgiriam e se materializariam, e ainda assim eu os refutaria dizendo que a "Lei", mesmo sendo boa e justa, não se aplica a justificados através do sangue de Cristo vertido na cruz do calvário.

Entretanto, se a lei não tem o condão de justificar quem quer que seja, mais ainda aqui, no âmbito dos justos, dos filhos adotivos em Cristo Jesus, dos eleitos, por que querê-la? Com essa assertiva, veremos o que mais nos diz o Apóstolo Paulo, verbis:

“Nós, judeus de nascimento e não ‘gentios pecadores’, sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado. “Se, porém, procurando ser justificados em Cristo descobrimos que nós mesmos somos pecadores, será Cristo então ministro do pecado? De modo algum! Se reconstruo o que destruí, provo que sou transgressor. Pois, por meio da Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça vem pela Lei, Cristo morreu inutilmente!” (Gálatas 2:15-21).

Volto a perguntar, se, pela prática da Lei, não somos e jamais seremos justificados, pois o somos exclusivamente por meio da graça, mediante a fé em Cristo Jesus (Efésios 2:8-10), por que a defesa 'encarniçada' da Lei, se não por um sentimento de "santa" vingança, ou, quem sabe, para que os teonomistas sejam os "detentores" da ira divina ao terem para si delegada a "vontade de Deus?"

Fico pensando cá com os meus botões que se a ordenança divina é para que "ajuntemos tesouros no céu, onde a traça nem a ferrugem corrói, e onde os ladrões não escavam nem roubam" (Mateus 6:20), por que lutar tanto para a imposição da Lei sobre este mundo caído e miseravelmente corrupto, a ser exercida por seres igualmente miseráveis, senão por um desejo carnal e indefensável de poder? Sim, a mim se apresenta como a mais inconteste demonstração de carnalidade, pois, uma vez possuindo a graça salvadora, qual a necessidade de se buscar a imposição da Lei? Quando se tem o "principal", por que querer também o acessório, quando para tê-lo é mister que se renuncie ao principal?

A mim, parece impossível vislumbrar qualquer glória a Deus na imposição da Lei, ainda que com o intuito de equilibrar as relações humanas. E, sendo assim, se o ato humano não glorifica a Deus, sob a ótica cristã, que seja maldito (1 Coríntios 10:31).

Novamente parafraseando Paulo eu lhes perguntaria:

Ó insensatos 'teonomistas'! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós? Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Gálatas 3:1-5).

Espero que os defensores da tão propalada teonomia estejam prontos à plena obediência da Lei, pois está escrito:

Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gálatas 3:10).

Finalmente, quero repetir que a Lei é boa, muito boa, por isso quero tê-la escrita em meu coração, testificando juntamente a minha consciência, e os meus pensamentos, quer me acusando quer me defendendo (Conforme Romanos 2:15).

E que Deus faça superabundar em nós a sua graça, para honra e glória dEle mesmo!

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Um diálogo - Sr. White, Sr. Black, Sr. Grey



*Cornelius van Til

Temos, primeiro, o não cristão, que cultua a criatura em vez do Criador. Vamos chamá-lo de Sr. Black. Poderá ser um tipo de pessoa bem "decente". Em função da graça comum ele pode fazer muita coisa "boa". Ainda assim, conquanto permaneça em seu estado de não-conversão, ele será tenebroso aos olhos de Deus.

Entretanto, temos um representante daqueles que, pela graça de Deus, tornaram-se adoradores do Criador-Redentor. Será o Sr. White. Certamente, ele está distante de ser aquilo que poderíamos esperar devido ao seu nome. Mas ele foi lavado no sangue do Cordeiro. Em Cristo, ele é alvo como a neve. O Sr. White é um cristão reformado.

Estranhamente, porém, há uma terceira parte, um arminiano, chamado Sr. Grey. Certamente, em Cristo, o Sr. Grey é tão alvo como o Sr. White. O primeiro, acha que o Sr. White é muito severo na avaliação do Sr. Black, mas ele próprio crê que o Sr. Black não seja assim tão tenebroso.

Sequer seria correto, política ou pedagogicamente, requerer que o Sr. Black fizesse uma virada de mente tão completa. Certamente, nem será necessário que tal revolução seja completa nos campos das ciências e filosofias. Muitos dos seguidores do Sr. Black têm defendido valentemente a existência de Deus contra o materialismo, o ateísmo e o positivismo. Até mesmo em teologia, muitos desses discípulos do Sr. Black saltaram em defesa quando Deus foi atacado pelos teólogos do Deus-está-morto. O Sr. Grey, portanto, tipifica o metódo de Aquino-Butler de defesa do cristianismo.

Vamos observar agora a diferença na maneira do Sr. White e do Sr. Grey abordarem o incrédulo Sr. Black com o Evangelho de Cristo.

Digamos que o Sr. Black esteja com dor de dente. Ambos, o Sr. White e o Sr. Grey são dentistas. O Sr. White crê em uma metodologia radical. Ele crê que o Sr. Black deveria ter toda cárie removida dos dentes, antes de obturá-los. O Sr. Grey é uma pessoa mais sensível e carinhosa. Ele não quer que o Sr. Black se sinta mal e, por isso, não quer que a broca penetre tão fundo no dente. Ele, certamente, retirará apenas uma parte da matéria deteriorada, e preencherá a cavidade.

Naturalmente, o Sr. Black achará tudo isso maravilhoso. Infelizmente, o dente do Sr. Black em breve continuará a deterioração. Ele retornará ao Sr. Grey, mas este jamais chegará a um procedimento radical. Por conseguinte, ele jamais resolverá o problema do dente do Sr. Black.

Suponha, agora, que, em vez de procurar o Sr. Grey, o Sr. Black tenha ido ao consultório do Sr. White. Este é radical, muito radical. Usa máquina de raios-X para diagnosticar as condições da boca do Sr. Black. Perfura o dente o quanto é necessário para remover toda a matéria deteriorada. A cavidade é preenchida. E o Sr. Black jamais precisa retornar por causa daqueles dentes.

Esta simples ilustração aponta para uma verdade básica. A Bíblia diz que o homem está espiritualmente morto em seus delitos e pecados. Os credos reformados falam de uma depravação total do homem. A única cura para a sua morte espiritual é a regeneração realizada pelo Espírito Santo, na base da morte expiatória de Cristo. É por meio da luz que a Escritura lança sobre a condição do homem natural que o Sr. White examina todos os seus pacientes. Ele poderá também ligar a luz da experiência, mas insistirá sempre que a experiência deva ser derivada, primariamente, da luz da Escritura. Assim, ele poderá apelar à razão ou à História, mas, de novo, somente da maneira que elas são vistas à luz da Bíblia. Ele nem mesmo toma a experiência, a razão ou a História para corroborar os ensinos da Escritura, mas a Bíblia para examinar todas essas operações. Para ele, a Bíblia e, portanto, o Deus da Bíblia, é como o sol do qual derivam a luz das lâmpadas de óleo, de gás e a lâmpada elétrica.

A atitude do arminiano, Sr. Grey, é bem diferente. Ele usa a Bíblia, a experiência, a razão ou a lógica como fontes de informação igualmente independentes sobre os próprios predicamentos e, portanto, os do Sr. Black. Isto não quer dizer que, para o Sr. Grey, a Bíblia, a experiência e a razão sejam igualmente importantes. Na verdade, não são. Ele sabe que a Bíblia é, de longe, a mais importante. Porém, não obstante, ele constantemente apela aos "fatos da experiência" e à "lógica" sem lidar primeiro com a própria ideia de fato e com a ideia de lógica, nos termos da Escritura.

A diferença é básica. Quando o Sr. White diagnostica o caso do Sr. Black, ele toma como máquina de raios-X, somente a Bíblia. Quando diagnostica o caso do Sr. Black, o Sr. Grey toma primeiro a máquina de raios-X da experiência, depois, a máquina de raios-X da lógica, e finalmente, a máquina de raios-X maior, a Bíblia. De fato, ele poderá tomar tais ítens em qualquer ordem, mas sempre haverá de considerá-los como sendo fontes de informação independentes.
(...)
Entretanto, quando o cristão reformado, o Sr. White, tem consciência das riquezas da própria posição, e, realmente, tem a coragem de desafiar o Sr. Black, apresentando-lhe uma chapa de raios-X do seu interior tirada com uma máquina chamada Bíblia, ele enfrenta a acusação de "raciocínio circular". Ele não apresenta nenhum "ponto de contato" com a experiência. Ele será, também, objeto de crítica do arminiano, por falar como se o cristianismo fosse irracional e por falhar em alcançar o homem das ruas.
(...)
O conceito arminiano de expiação substitutiva é colorido, e nós, como calvinistas, creríamos "descolorido", segundo a visão do "livre arbítrio". Segundo a visão arminiana, o homem tem poder absoluto ou final para aceitar ou rejeitar a salvação que lhe é oferecida. Isso implica que a salvação oferecida ao homem é mera possibilidade de salvação.

Para ilustrar: suponha que eu deposite um milhão de reais em sua conta bancária. Ainda assim, fica ao seu critério crer que tal riqueza lhe pertença, e usá-la para cobrir o chão de sua casa com tapetes persas, em vez de fazê-lo com os velhos tapetes puídos que você tem agora. Assim, no esquema arminiano, a própria possibilidade das coisas não mais dependem exclusivamente de Deus, mas, em algumas áreas, dependem do homem. O efeito daquilo que Cristo fez por nós é feito dependente de nós. Não é mais certo dizer que, para Deus, todas as coisas são possíveis.

Fica óbvio, portanto, que os arminianos levaram para o seu protestantismo uma boa porção do levedo do catolicismo romano. O arminianismo é menos radical e menos consistente em seu protestantismo do que deveria ser.

Ora, o Sr. Grey, o evangélico, parece estar confortável quando tenta conquistar o Sr. Black, o incrédulo, à aceitação do "sacrifício substitutivo". Ele pode firmar os pés em "chão comum" com o Sr. Black em termos daquilo que é possível ou impossível. Observe o Sr. Grey enquanto fala com o Sr. Black.

"Sr. Black, porventura já aceitou Jesus Cristo como seu salvador pessoal? Crê que ele morreu na cruz em seu lugar? Se não, certamente estará perdido para sempre."

"Bem", responde o Sr. Black, "acabei de receber uma visita do Sr White, falando sobre o mesmo assunto. Vocês parecem ter um 'testemunho comum' sobre a matéria. Ambos creem que Deus existe, que ele criou o mundo, que o primeiro homem, Adão, pecou, e que todos nós merecemos o inferno por causa do que esse homem fez, e daí em diante. Tudo isso me parece muito fatalista. Se, como você diz, eu sou uma criatura, então, não terei nenhum poder final para escolher. Não sou livre. E se não sou livre, então, não sou também responsável. Assim, se eu for para o inferno, será simplesmente porque seu 'Deus' assim determinou. Vocês, cristãos ortodoxos, matam a moralidade e todo progresso humano. Não quero ter nada com isso. Até logo!"

"Ei! Espere um pouco", diz o Sr. Grey afobado. "Eu não tenho um ponto de vista em comum com o ponto de vista calvinista. Nós dois, sim, temos um testemunho comum contra o calvinismo quanto ao determinismo mencionado. É claro que você é livre. Absolutamente livre para aceitar ou rejeitar a expiação que lhe é oferecida. Você mesmo terá de torná-la real para a sua vida. Concordo com você, contra o calvinismo, dizendo que a 'possibilidade' é maior do que a vontade de Deus. Nem por um momento eu diria com os calvinistas que o conselho de Deus determina tudo o que se passa."

*Extraído da obra "O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno" , 1ª edição, 2010, traduzido por Wadislau Gomes, São Paulo, Cultura Cristã, p. 42-50)

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pequeno desabafo sobre grandes fraquezas


A vida cristã é uma caminhada longa, permeada de espinhos, uma trilha quase inacessível. Por vezes nos alegramos ao imaginar que a trilhamos bem, outras vezes, sequer acreditamos que ainda permanecemos nela, mais parecendo que pegamos o "atalho" que nos leva à via larga e bem pavimentada.

É doloroso, pelo menos comigo, observar que ainda estou a cometer velhos erros quase relegados ao esquecimento, conquanto pensasse que já havia ultrapassado essa "fase". Por quê? Por que ainda os cometo se tenho Cristo na minha vida e sinto-o constantemente a "acordar" a minha consciência outrora entorpecida?

E então me dou conta que a velha natureza está aqui latente, bastando um pequeno "cochilo" para que ela volte com a sua antiga sanha. Sinto claramente a batalha travada constantemente com esse "eu" teimoso, essa carne maldita, contaminada pelo pecado. Os erros de outrora aflloram, o "espinho" começa a latejar na carne, a fúria e a ira vencendo o equilíbrio e a temperança... E então penso, logo após a descarga, o rompimento do dique de emoções que escoam (e ecoam) pela boca em duras palavras: miserável homem sou!

Não é preciso que me digam nada, nem que seja confrontado com o pecado, passada a fúria, pois eu mesmo me encarrego de esbofetear-me, rugindo intimamente contra a intemperança. E não há tapa que doa mais do que aquele que damos em nós mesmos.

O pior de tudo é sentir que se retrocedeu na vida cristã, um sentimento de retorno à estaca zero que nos faz duvidar do caminho que antes seguíamos: - por onde sigo, é esta mesmo a estrada ou me embrenhei por estrada errada?

Por que não resisto ao latejar da ira se sei previamente que o resultado será amargo? Por que sentimentos sepultados, condutas dessarraigadas teimam em brotar dando ensejo ao antigo homem?

Novamente me dou conta que sou nada! Vejo claramente que o controle que pensava ter cai por terra diante da mínima provocação, quando abandono a dependência necessária, quando imagino que sou autossuficiente , esquecendo-me de recorrer à bondade e misericórdia do Criador. Nesses momentos, passada a tempestade - como agora - eu me envergonho profundamente de me declarar cristão. Aliás, quase chego mesmo a duvidar disso...

Quando busco o bem por minhas próprias capacidades, quando tento caminhar sozinho, tropeço, retornando à certeza de que a minha justiça não passa de trapo de imundície. E torno a me enxergar pequeno e miserável, e a imagem que vejo refletida no espelho da minha mente é feia , quase horripilante. Sou nada! Parece que todo o caminho longamente percorrido não passa de alguns insignificantes metros. Em alguns momentos, sinto como se tivesse andado em círculos, voltando ao ponto inicial...

O bem que quero não faço, mas o mal que não quero...

Há pouco li num blog de um amigo que é muito fácil debater aqui neste mundo virtual, pois, ainda que os ânimos se exaltem, há uma linha imaginária demarcada, que as pessoas não querem e sabem que não devem ultrapassar, salvo raras excecões. Na vida cotidiana é que o "fruto" será percebido ou não. É lá que os espinhos serão mais certeiros. E a resistência duramente conseguida pode ser, em um momento, destruída. Cedem os diques, prorrompem as águas a levar consigo tudo o que vem pela frente. E basta um único momento assim para nos trazer desânimo e incertezas

Passada a tormenta, ainda que desesperados, desanimados, desvanecidos, faz-se necessária a reconstrução.

Nesses momentos, o melhor é lembrar novamente dos conselhos do apóstolo: quando sou fraco é que sou forte, pois é na fraqueza que sou aperfeiçoado - ainda que duvidemos disso.

Quando a minha segurança está alicerçada nas minhas próprias forças, mesmo que inadvertida ou involuntariamente, Deus me faz lembrar que fora dEle tudo é efêmero, fugaz, etéreo. Eis que me volto para Ele pedindo misericórdia: tenha misericórdia de mim SENHOR!

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Breve balanço do ano que passou e expectativas para o vindouro


É difícil analisar o que fizemos e deixamos de fazer com verdadeira imparcialidade. Tendemos a dar maior peso ao que fizemos de bom e passar ao largo do que não nos traz boas recordações, relativizando as atitudes e eventos que nos causam vergonha.

O que fiz de bom e de mau neste ano de 2010? Impossível enumerar com fidelidade, pois os eventos se sucedem com grande rapidez. Posso ter uma visão geral, um sentimento sobre o todo, a capacidade de pesar os eventos e atitudes, e ainda assim não ser completamente imparcial; eis que estou falando de mim mesmo .

Incorri em erro, muitas vezes, indo além do que deveria. Cometi o pecado do excesso ao dizer o que penso com extrema crueza. Fui julgado duramente nessas oportunidades e outras vezes julguei com igual dureza. Fui contraditório tantas vezes e outras ainda, julgado contraditório sem ser.

Tentei acertar sempre, mas é claro que nem sempre consegui. Outros acham que podem e se julgam quase perfeitos, ou mais, fazendo um juízo superlativo de si mesmos.

Errei, errei e errei. Arrependi-me de não me calar quando deveria. Gritei e fiz retumbar a minha "voz" quando o melhor seria ter calado. Sou esta espécie estranha que compõe a humanidade, cheio de altos e baixos; caindo e levantando.

Acertei em inúmeras oportunidades. O balanço , o inventário não posso fazer. Tenho apenas uma visão geral dos acontecimentos. Espero ter acertado mais e errado menos do que gostaria. Há muitos que pensam não errar, colocando-se em um patamar em que simples mortais não podem alcançar.

Tenho alguns amigos, os quais admiro, aprecio verdadeiramente. Tenho muitos irmãos que verdadeiramente amo. Mas não pertenço a nenhum "gueto", nem corporação. Consigo avaliar as coisas com honestidade, sem pender para lá ou para cá, ao sabor das minhas paixões. E é muito mais fácil ser aceito pelo "grupo", ou por um grupo, quando você pertence a ele. Eu não pertenço a nenhum, apenas tentando ser leal aos valores cristãos que me guiam. E ainda assim, erro, erro e erro.

Sou menor do que gostaria e maior do que muitos medem. Sou ainda muito menor do que a medida que muitos amigos e irmãos imaginam que tenho: a "fita métrica" deles é generosa...

A tantos que leram os despretensiosos textos publicados neste humilde espaço durante o ano de 2010, obrigado. Agradeço sinceramente. Cada comentário aqui publicado fez a minha alegria, ainda que não concordando com os meus textos. Cresci com a diversidade, com as diferenças, com o inusitado. Cresci ao saber que tantos pensam muito melhor do que eu mesmo; e com a grandeza de alguns pude enxergar a minha própria pequenez. E, enxergando as minhas mazelas, a minha insignificância, segui adiante. E cresci.

Tenho as minhas convicções bem firmes, bem plantadas e elas caminham de encontro ao Verdadeiro e único Evangelho. Quero continuar assim, ainda que propenso a mudar para melhor. Critico e sou criticado; estou aqui exposto e estou sendo avaliado, mas igualmente medirei quem me avalia. É..., todos temos "lentes" - e não quer dizer que as do meu oponente no debate sejam mais claras do que as minhas. Se achar que são embaçadas, direi. Aceito, igualmente, que digam o mesmo das minhas.

Continuarei por aqui até quando Deus quiser, rogando a Ele que me dê sabedoria, equilíbrio e sensatez.

Que o próximo ano seja repleto de Deus em nossas vidas. Que aprendamos, cada dia mais, a depositar nEle as nossas expectativas, pois o seu jugo é leve e as suas promessas jamais falham.

Um abraço a todos . Cristo seja a nossa luz e que possamos refleti-la. Ousemos no próximo ano e que não sejamos insossos e insípidos, mas que possamos temperar este mundo.

Ricardo Mamedes.


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