terça-feira, 28 de setembro de 2010

Perdão e humildade




Estou ensimesmado, voltado para mim mesmo, exercitando a introspecção tão necessária ao crescimento do caráter. É..., pensar faz crescer, faz-nos ver a magnitude da nossa pequenez - que me perdoem a ousadia linguística.

Há momentos em que necessitamos do "freio" invisível, da auto-censura que impede que caiamos no ridículo, ou que cometamos os erros mais crassos ou espalhafatosos. Nem significa que nesses momentos estejamos a ouvir os outros, mas apenas os ecos dos nossos próprios pensamentos a retinir em nossos ouvidos... e então nos abandonamos a pensar.

Esse ensimesmamento nem sempre traz dor, ou tristeza, nem mesmo ressentimentos ou mágoas. São apenas lembranças, pensamentos, reflexões. Um exercício pleno de autoanálise. A busca de remédio para sentimentos contraditórios.

As relações pessoais nos aprisionam, a proximidade com o "outro" é tão necessária quanto escravizante. A mente, esse carrossel incessante a girar, girar, processa milhões de emoções contínuas e rápidas, e muitas vezes nos damos conta que deixamos de apreender o essencial. Pegamo-nos a nos debruçar no acessório, abandonando o principal. Ficamos à margem das sensações, quando deveríamos mesmo era mergulhar no oceano da existência plena, completa; bela e ao mesmo tempo dolorosamente excruciante.

Não me apego ao existencialismo, à busca das respostas para o sentido da vida com base na sabedoria 'deste século', não é isso. Cristo me satisfaz plenamente, todas as respostas estão nEle. Mas ainda que tendo a promessa do porvir, este mundo nos aflige de tal maneira que muitas vezes nos sentimos fracos. Vivemos aqui - por enquanto - e nos relacionamos com os nossos semelhantes. E é aí que residem todas as agruras. Estamos aqui, mas não somos daqui. Conversamos com 'eles', mas não sentamos em suas rodas, nem andamos no 'seu' conselho, tampouco trilhamos o 'seu' caminho. O nosso prazer, sem dúvida, está no Senhor (paráfrase ao Salmo 1).

O apóstolo Pedro diz, em uma das suas Epístolas, que devemos confirmar a nossa eleição. Estranho isso, pois se somos eleitos, a vontade dAquele que nos elegeu se confirmará. Todavia, eu consigo compreender essa aparente contradição dentro de uma perspectiva de responsabilidade.

Tudo isto para falar de perdão. Um grande rodeio semântico a desaguar nesse dilúvio emocional chamado perdão. Sou um cristão, sinto amor pelos meus irmãos, mas também sinto raiva. Amo e ao mesmo tempo repilo. Quero abraçar o meu semelhante, mas também quero estapeá-lo. Essa luta é permanente e cansativa. Tenho o Espírito de Deus em mim, mas também sou homem - falho, pequeno, miserável. Não faço mesmo o bem que quero, mas o mal que não quero... Ah, que sabedoria do apóstolo!

Se perdoar é difícil, muito mais ainda é pedir perdão. Aliás, reformulo o pensamento e as palavras: perdoar envolve pedir perdão primeiro. Exige mergulho em humildade, grandeza de caráter; exige abster-nos de uma suposta razão que nos force a "fincar os pés teimosamente nas nossas convicções mais íntimas".

Pedir perdão, no fundo, é sacrificar certezas arraigadas. Pedir perdão, quase sempre, envolve diminuir-se... Porém, é muito mais do que o adágio: "vão-se os anéis ficam os dedos", ainda que envolvendo o sacrifício de um bem por outro - este outro, maior.

Num paralelo incomum, eu diria que pedir perdão é atitude que envolve amor ágape; é dar sem esperar receber nada em troca. Significa dizer que o que pede perdão não pode esperar de volta pedido idêntico, ou reconhecimento, pelo outro, das próprias falhas. Porque esperar essa retribuição demandaria em nutrir expectativas que poderiam não se traduzir em realidade, tornando inócuo o pedido.

Todavia, nada é mais reconfortante do que o reconhecimento das próprias falhas; saber-se humano, pequeno, frágil. Sentimento de grandeza, de infalibilidade, geralmente impede que se transija, que se flexibilize, que se volte atrás. Ás vezes é necessário sacrificar a certeza de que se tem razão e pronunciar o pedido, mesmo quando isso se traduza em suposta humilhação.

Encerro a reflexão com os versículos abaixo, que têm tudo a ver com a questão:


Lucas 17 3 Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. 4 Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe.
Efésios 4 32 Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.
Enfim, que exerçamos, acima de tudo, o amor , como Cristo nos ensinou.

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domingo, 5 de setembro de 2010

Evangelho de Cristo: permanência e salvação




Ainda ontem conversando com um amigo, via gtalk, lhe confabulei que estou meio preguiçoso ultimamente. Meu blog está sem novos textos, às vezes não respondo a todos que comentam por aqui (e nem são tantos). Um certo desânimo que nos acomete às vezes, embora estando tudo em ordem, as dificuldades normais do cotidiano... é um sei lá o quê.

Eis que hoje na escola dominical, depois de ouvir uma ótima exposição de um irmão, firmei reflexão neste texto bíblico:

Prega a palavra, insta, quer seja oportuno , quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina (2 Timóteo 4.2).

Essa segunda Carta a Timóteo tem principalmente a característica de exortar os crentes da igreja primitiva, uma vez que um grande número de heresias já acompanhava e perseguia o cristianismo nascente. Muitos, já naquela época, tentavam mudar os seus pilares, firmados na cruz de Cristo, Rocha sólida, para oferecer novos meios de salvação, que não a graça, ou a fé dada diretamente aos santos por Deus. A luta do apóstolo Paulo é constante tanto na pregação como na exortação.

Interessante observar que os versos seguintes do mesmo capítulo citado em epígrafe , da Segunda Carta do apóstolo Paulo a Timóteo, assim assevera, corroborando o que acabei de afirmar:

"Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina ; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas" (vs 3, 4).

Temos a oferta de um evangelho depauperado, trôpego, cambaleante. Oferecem-se tudo aos "frequentadores" de igrejas, desde a melhor unção até a maior bênção financeira. Cristo crucificado e ressurreto, morto vicariamente pelos pecados de muitos não tem mais lugar na pregação. Os jargões tomaram o lugar da letra viva, os "mantras" repetidos à exaustão é que convencem os "usuários" de tal evangelho.

Os vendedores de ilusões, defraudadores da Palavra, se acotovelam nos púlpitos em busca de novos seguidores incautos, oferecendo-lhes, não a Bíblia, mas os "passos" necessários para se "chegar lá". Esse "lá" é o lugar da vitória, é onde você encontrará todas as respostas, é o "abracadabra" . "Lá", todos os seus problemas terminarão (principalmente financeiros), todos os sofrimentos terão fim, pois a bênção te espera, bastando que você "se aproprie dela".

Os "pregadores mercantilistas profissionais" se valem de todas as técnicas de autoajuda, insuflando nos "espectadores" (ou telespectadores) a grande capacidade interior que move cada um, a "força" que os impele para a frente e que é "intrínseca" ao ser humano. Vicejam nas "reuniões" os Augustos Curys, as palavras de ordem, as repetições, as promessas.

O grande mote é a pregação enfática: os gritos, os sapateios, pulos, gemidos, rosnados. Muitos desses "luminares" chegam a espumar os cantos da boca - o que me faz lembrar os lobos vorazes, devoradores. Vez ou outra citam os seus mestres, e um dos mais lembrados é o Marco Feliciano. Eu mesmo já tive o desprazer de ser instado a ouvir um CD do "grande pregador", e embora tendo estômago de avestruz, não me atrevi a tanto.

A pregação expositiva não tem lugar nesse meio evangélico/gospel. Buscam-se sinais e prodígios, curas e milagres. Novas revelações se reproduzem: é uma palavra para cada "usuário".

É terminantemente vedado aos emergentes evangélicos discutir com o "grande líder". Instar, exortar, questionar, tudo proibido! Os robôs, pequenos autômatos, seguem os seus gurus, semideuses, até se precipitarem no abismo. Não há palavra , ensinamento que os faça parar.

Outrora, a não tanto tempo eu afirmei que essa "fé" firmada em experiências emocionais as mais diversas, mas distantes do Logos eterno, do Verbo, do Cristo, não se mantém. Aliás, não é nem mesmo fé. O que eu espero é o que está em Cristo, e o que está nEle está além dos meus olhos, muito próximo do coração. E é racional, inteligível; é compreensível, bem ao contrário do que "pregam" os vendedores de ilusões. Essa fé é perceptível, mas intangível (Hebreus 11), não se materializa em coisas, tampouco em palavreado enfatuado, ou em performances.

Homens que pregam o que não fazem, fazedores de prosélitos vazios (Mateus 23.15) , que nem entram para o reino e também não deixam entrar aqueles que estavam entrando (Mateus 23.13); estes, são os fariseus modernos a que faz referência um hino.

Há momentos em que é triste reconhecer que palavras ditas e escritas previamente se materializaram... palavras proféticas, mas que não foram proferidas com o usual prefixo "Deus me mandou dizer..."

Desviar da Palavra de Deus e embrenhar por experiências humanas como sendo a verdade, traz terríveis consequências, disse eu outrora. Melhor é crescer em graça, diminuir para que cresça Cristo. Necessário é pregar essa Palavra da verdade, ainda que poucas sementes germinem, porém, aquelas que germinarem serão árvores fortes, resistentes; árvores que suportarão grandes intempéries, terríveis tormentas. Aquelas outras, serão apenas sementes que germinam mas logo morrem.

O pior de todos os equívocos é se cortar "árvores frondosas" , ao mesmo tempo em que se semeia joio.

Voltando ao início desta reflexão, retorno à Segunda Carta a Timóteo, capítulo 4, versos 14-17:

"Tu porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação em Cristo Jesus. Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra".

É nessa Escritura que eu quero me manter firme, imune a todo e qualquer movimento humano deturpado, travestido de falsa piedade cristã. A seara é grande, cabendo a nós exclusivamente anunciarmos o Evangelho da salvação sem exibicionismos, sem grandes performances, sem vozerio e sem prodígios ( principalmente de mentira). Além disto, cabe somente a Deus efetuar o "querer e o realizar segundo a sua boa vontade" (Filipenses 2.13). Não há atalhos, somente há um caminho. Atalhos, quando há, levam à morte.

Toda honra e toda glória ao Criador, Senhor de tudo e salvador daqueles que o glorificam em espírito e em verdade, de todo o coração e não apenas "honrando-O com os lábios".



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sábado, 28 de agosto de 2010

Aniversário da amada...





Hoje é seu aniversário e vejo o tempo a lembrar-me de "ontem", quando ainda, jovenzinhos, sonhávamos em ser "grandes". Pensei em escrever belas palavras, cheguei a fazer as rimas da poesia, mas elas, as tais, brincavam em minha mente de pregar peça. E eis então que eu não me decidia entre a poesia, a prosa, o escrito menor, a palavra dita e a que nunca fora dita...

Pensei em fazer uma festa, chamar os amigos, comprar a champanhe e o vinho, ou, dinheiro pequeno que fosse, fazer refrescos vermelhos... e guaraná borbulhante inflado de bolhas pequenas...

Lembrei de você em anos passados, vi a menina a sonhar, vi alvorecer o tempo nos seus lindos e longos cabelos; vejo uma linda mulher...

Não há tempo, não há dias, só há momentos, só há lembranças fugidias... e você. E eu. E nós...

Vejo em ti a mulher que brotou, beleza madura como manga cheirosa, tenros gomos de tangerina a escorrer pela minha boca. Uma nesga de tempo a rondar, e a fruta, gostosa que só, se desgarrando a cair em meus braços...

Pensei em fazer poesia pra você no dia do seu aniversário, mas como não sei lidar com os versos, deixo aqui as palavras do Drumond, o poeta:



O tempo passa? Não passa no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima cada vez mais,
nos reduza um só verso e uma rima de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar
O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou do tempo,
não tem idade pois só quem ama escutou o apelo da eternidade.

A ti, nestes teus anos, eterna amada, beijos e segredos contados ao ouvido, doces histórias, pequenos e grandes segredos, que só a nós dois interessar possa...

(rindo aqui do atrevimento)

FIM

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sábado, 21 de agosto de 2010

O anjo




Por Sarah Mamedes

Quando nasci, um anjo meigo e suave,
Daqueles bons, que estão sempre ao seu lado,
Disse-me: cresça e seja feliz

O tempo passou,
Fez sol, fez chuva
Eu cresci, mudei, me apaixonei,
Estudei e me casei.

Ora fui feliz, ora não fui.
Me alegrei e me frustrei,
Confiei e me decepcionei,
Andei na escuridão e no clarão.

Apreciei a lua, sentei-me na chuva,
Olhei para o céu azulado e estrelado,
Tive alguns desejos frustrados e outros realizados,
Mas no fim, acabei sendo assim: feliz.


Ps: Esta pequena poesia foi escrita pela minha filha de 13 anos. Como eu a achei muito lindinha, resolvi publicá-la neste espaço.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Equilíbrio e sabedoria



A vida é pautada por tantos acontecimentos que não podemos enumerá-los. Eles se sucedem continuamente, e nós, seres efêmeros que somos, vamos também nos modificando. Pior seria se continuássemos imóveis, estáticos, encravados na mesmice sem nada aprender ou apreender.

Há, porém, valores que devem ser definitivos, tais os que se referem à ética, os que formam o caráter e que moldam a personalidade. Valores que, ou são, ou não são. Muitas pessoas dizem tê-los, mas ao serem confrontadas com situações limites, mostram um caráter incompatível com aqueles valores antes “construídos”.

Todavia, nem é sobre isto que quero falar. Desejo estabelecer o foco deste pequeno escrito em algo que caracteriza cada ser humano, e se exterioriza nas suas relações do cotidiano: equilíbrio. Como é difícil alcançá-lo! Quantas vezes somos "tentados" a perdê-lo... Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, dizem os antigos.

Lendo um livro de autoria de Anthony Hoekema, “Criados à imagem de Deus”, por sinal uma ótima obra, me detive a refletir sobre algo que ele analisa: a autoimagem. Podemos cultivá-la? Sim, uma vez que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, e, mesmo os não-regenerados, a têm, ainda que disforme e depravada. Necessário, pois, que tenhamos uma boa imagem de nós mesmos, que nos amemos, pois assim estaremos glorificando a Deus.

O perigo é ter essa autoimagem excessivamente cultivada, pois se corre sério risco de incorrer em outro erro bastante comum, o narcisismo. Começa-se a se achar melhor do que o mundo todo, ou mais belo, ou mais inteligente, ou mais sábio, mais crente, mais, mais, mais... As qualidades dos outros “simples mortais” passam a ser apenas sombras das suas próprias e personalíssimas qualidades. Acometido por esse narcisismo em grau elevado, começa-se a ter uma certa miopia, o mundo passa a girar em torno de si mesmo. Do narcisismo à egolatria é apenas um pequeno salto. Outros saltos se sucedem, rumo à soberba, arrogância, vaidade.

Ser cristão não é fácil, pois significa abdicar da vaidade, calar quando necessário, ser educado com o próximo, suportar em amor. O silêncio é mais reconfortante do que a ironia fina, pois mostra um caráter regenerado. Abdicar da soberba é tarefa complicada, especialmente para os que se querem sábios, ou assim anseiam ser reconhecidos.

Tarefa difícil é calar quando se tem razão, suportar as inconsistências do irmão, silenciar para as suas incoerências, a fim de evitar contendas. E nisto, vale o ensinamento do apóstolo Paulo: "Nada façais por contenda ou por vanglória; antes com humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo" (Flp. 2:3).

Ainda que apartado dos valores cristãos, o sentimento de superioridade revela o pedantismo de uma personalidade torta. A sabedoria acalma, é apaziguadora. O sábio, principalmente cristão, não se sente obrigado a redargüir sempre, a ser incisivo além do que deveria, mas transige, sem medo de tornar-se menor aos olhos alheios. Em nada tais comportamentos se confundem com falsa piedade, ou falso moralismo cristão. É mesmo qualidade primordial dos sábios, que foram regenerados pelo Altíssimo.

Que sejamos de fato barro nas mãos do Oleiro, sal e luz nesse mundo de trevas.

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O tempo



1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: 2 há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; 3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; 4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; 5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; 6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; 7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; 8 tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.


(Eclesiastes, 3.1-8)


Tempo. Tudo gira em torno desse 'personagem' intangível, mas que constantemente nos assoberba sobremaneira. Olhamos para a frente, vislumbramos então o futuro. Volvemos o olhar para trás e lá está o passado a nos contar a história das nossas vidas. Vidas que se cruzam, se entrelaçam, se entrechocam. O presente é fugaz, tão ou mais intangível do que o próprio tempo. Quase que num átimo - esse suspirar de tempo - perdemos o momento de agora, que nos escapa por entre os dedos.

A nossa existência é também regulada pelo transcorrer do tempo, que flui inexoravelmente. Tempo e existência também a se entrelaçar... E eis que fazemos os nossos projetos, urdindo e construindo sonhos, uns que se realizam e outros que jamais se realizarão. E o tempo fluindo, fluindo, deixando as suas marcas e as suas cicatrizes em baixo relevo nas nossas peles.

Nos consideramos "donos" do tempo, quando afirmamos peremptoriamente que "amanhã faremos isto ou aquilo". As nossas agendas se "sentem" quase como proprietárias desse garoto soberbo. Projetamos as nossas vidas de acordo com aquilo que almejamos, "construindo" o caminho a ser trilhado. Quanta ilusão...!

Queremos nutrir ilusoriamente essa estranha capacidade de autodeterminação, como se fôssemos capazes de ter o senhorio pleno sobre as nossas vidas. E nem sequer somos capazes de determinar o próximo segundo que virá após o último exalar de ar dos nossos pulmões. Não sabemos o que virá depois do próximo piscar de olhos: pode ser que eles nem mesmo voltem a piscar, paralisados, tendo captado a última imagem gravada na íris. E nem mesmo esta derradeira imagem permanece, posto que se desvanece, dando lugar à escuridão fria.

Entretanto, o tempo corre a nosso favor, flui doce e suavemente quando cultivamos a certeza inabalável de que ele não nos pertence, quando olhamos além dele para a eternidade. Reconhecemos que somos peregrinos, forasteiros neste mundo e que nada nos pertence de fato. Tomamos emprestado do Criador o próprio tempo, que nos é dadivosamente fornecido. Resta-nos agradecer a Ele pelo empréstimo, a cada amanhecer. E, ao anoitecer, voltar-nos novamente para o Eterno em novo agradecimento e súplica, para que nos conceda, por pura misericórdia, um pouco mais desse fluir.

Nascemos, crescemos, casamos, temos filhos - uns sim, outros não - , envelhecemos e morremos. Tudo minimamente medido. Enquanto isso, o tempo, senhor inexorável das nossas vidas, é ordenado por Deus. Ele próprio (o tempo) a exaltar a grandeza do Todo Poderoso.

O que é o homem, em toda a sua arrogância e soberba? Diz o salmista: "Pois Ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó. Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece (...) (Salmos 103.14-16).

Quanto a mim, sinto-me realmente 'grande' quando reconheço a minha pequenez. Apropriando-me das palavras do apòstolo: "Sou forte, quando sou fraco". A coragem, quando a tenho, manifesta-se no temor ao Senhor, Deus meu.

Pobre homem sou, quando me agarro ao meu próprio senhorio: "O homem é como um sopro; os seus dias, como a sombra que passa" (Salmos 144.4).

"Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado; a sua grandeza é insondável" (Salmos 145.3). Eu sou apenas como o vento fugaz, que passa rapidamente, dando lugar à calmaria.

Louvado seja o Eterno Deus, dono do tempo, Senhor da minha vontade, mantenedor da vida e Criador do homem, do universo e de tudo que há 'debaixo do sol'.

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domingo, 1 de agosto de 2010

Soberano Oleiro




"Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3.23-24)

O homem certamente foi engolfado pelo pecado a partir da queda. O pecado passou a ser uma marca indelével no seu caráter quando o homem deixou de gozar do beneplácito divino, após a queda do casal primevo, narrada no capítulo terceiro do livro de gênesis.

Tão logo foi cometido o pecado, com a queda propriamente dita, Deus passou a olhar a sua criação com olhos críticos. O pecado teve a força de subverter tudo, tornando disforme e depravada não somente a imagem do homem (feito à imagem e semelhança de Deus), como toda a criação, a totalidade do universo criado. Como que fora disseminada uma sombra, uma cortina escura sobre o universo, absorvendo dele todas "as cores", toda a pujança de outrora. É de se imaginar que o Criador passou a ver o que criara, inicialmente tão bom e belo, com uma sombra a deformar tudo.

O homem não mais conseguia buscar a Deus; o seu Senhor e Criador ficou separado das suas criaturas, uma vez que, sendo santo e justíssimo, não poderia misturar-se a seres pecaminosos e impuros. O pecado, pois, infligiu ao homem a solidão de Deus. Não havia mais como buscá-Lo (Salmos 14.1-3, 51.5-6; Romanos 3.10-12), pois a justiça do homem transformara-se em "trapos de imundície" (Isaías 64.6).

Pelo pecado de um só homem, toda a humanidade pecou e tornou-se carecedora de Deus (Romanos 5.12). Não há obra humana capaz de novamente religar o homem a Deus, a não ser o próprio Deus. Toda a humanidade padece o seu próprio mal; o planeta e o universo gemem pela distância do Criador, pela sua ausência. Os "mortos" continuam nas suas atividades normais, o tempo flui o seu lapso contínuo, mas o homem - morto em seus delitos e pecados - cada vez mais se aprofunda no erro. Não há quem busque a Deus, não há um sequer.

É preciso que o pecado se desvaneça para que o homem, o universo inteiro, possa voltar a Deus. O que fazer, se o próprio homem, vestido de uma natureza completamente pecaminosa não se vê em condição de buscar o Criador? Como religar o que foi rompido? Como restabelecer a antiga imagem e semelhança de Deus ao homem sem a deformação imposta pelo pecado e pelo mal?

Ora, se ao homem é impossível a tarefa de novamente estar em relacionamento com o seu Criador, cabe somente ao próprio Deus, segundo a sua vontade e desígnio eternos, trazer o homem para Ele (João 15.16).

Aprouve então a Deus dar o seu unigênito filho (Joaõ 3.16) para resgatar essa humanidade perdida, trazendo para si todos aqueles que creem, pelo Seu exclusivo amor. Ato unilateral de vontade! E assim, pela obediência de um só homem (Cristo), muitos foram justificados (Romanos 5.19).

Há os que dizem que, a despeito da queda o homem ainda pode buscar a Deus, através de uma força chamada livre arbítrio. As Escrituras dizem que não, uma vez que a depravação foi total: não há quem busque a Deus, pois todos pecaram e carecem de sua glória - através do pecado de um só homem.

Fé. Somente a fé pode novamente religar o homem ao Seu Criador. Não podemos tê-la por nossas próprias forças. Temos um caráter depravado. Não auxiliamos Deus nesse mister. Como tê-la então? Uns dizem que é possível ter fé, a despeito do pecado original, muito embora a Palavra diga que não. Argumentam que a fé produz a regeneração, e que esta fé é fruto de um certo livre arbítrio. Assim, segundo eles, o buscar a Deus é dom do próprio homem. Todavia, a Palavra de Deus diz o contrário:

"Ninguém pode vir a mim se o pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia" (João 6.44);

"Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum lançarei fora" (João 6.37);

"E prosseguiu: por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim se, pelo Pai, não lhe for concedido" (João 6.65).

Em outras palavras, o evangelista está dizendo que o homem não pode buscar a Deus. E, buscar a Deus, nesse contexto bíblico, é ter fé! Ou seja, Deus nos concede a fé para que possamos buscá-Lo, uma vez que o homem não pode fazê-lo por si mesmo. O contexto bíblico é claro, remansoso, cristalino, irrefutável. Logo, a regeneração precede a fé e esta vem pelo ouvir a Palavra. E essa fé, não vindo do homem, é dom gratuito de Deus (Efésios 2.8-9). A fé, pois, é presente, dádiva de Deus.

O homem coopera com Deus de alguma forma no caminho a percorrer para ter fé? Segundo o que diz a Bíblia (sic) não. Homens mortos em seus delitos e pecados não têm como buscar a Deus, tampouco cooperar com Ele em qualquer coisa. E eis que, por isso mesmo, "Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2.13).

Finalmente, como Deus opera esse querer e realizar em nós, homens mortos em nossos delitos e pecados? Devemos buscar a resposta na própria Bíblia, então vejamos:

"Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça" (Efésios 1.4-7);

"Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Efésios 1.11);

"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados" (Efésios 2.1

Erram aqueles que dizem, a despeito da própria Bíblia, que fazemos a escolha (fé) através de um certo livre arbítrio, completamente contrário à lógica escriturística colacionada em epígrafe. Ele nos escolheu antes que nós o escolhêssemos (João 15.16), valendo dizer que apenas O escolhemos depois que Ele nos escolhe. E como é feita essa escolha? Por ato exclusivo da vontade do Criador (eleição), através de critérios tais que somente Ele tem conhecimento:

"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (Romanos 8.29-30).

E de quem é a fé? Porventura é de todos? Não, mas somente daqueles que foram escolhidos por Deus na eternidade (2 Tessalonissenses 3.2; Tito 1.1).

Deus é injusto por eleger alguns e reprovar outros? Não, pois Ele, sendo Deus, tem misericórdia e compaixão de quem quer ter (Romanos 9.14-15). E então, por acaso, depende de quem corre (livre arbítrio)? Não, mas de usar Deus a sua misericórdia (Romanos 9.16).

Deus é o Oleiro, nós somos apenas barro. E o Oleiro faz do barro o que lhe apetece. Faz vasos agradáveis e vasos desagradáveis, exatamente a fim de que sejam diferenciados os bons dos maus, para a Honra da sua glória.



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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Hipocrisia 'santa'



Estava aqui a pensar sobre tantas coisas que me aconteceram nos últimos tempos quando, novamente, fui transportado àquele tempo em que vivia a combater as estripulias gospel na igreja onde congregava. O arrepio percorreu da espinha ao dedão do pé somente com a horrenda lembrança, hei de confessar.

E não é que dia desses alguém novamente veio me dizer que certa pessoa , dentre as tantas que conheço, continua a praticar das suas! E então começou a discorrer sobre o fato. Sabem como é, embora detestando a coisa, a curiosidade nos faz prestar atenção à narrativa, quando o melhor seria não ouvi-la.

Disse-me o narrador que um dos praticantes do misticismo daquela 'grei', reunindo-se a um grupo de jovens novos convertidos e ainda bastante imaturos na fé, 'carreou-os' até um certo monte para que se sentissem mais próximos de 'deus'. E lá chegando, vendo uma das jovenzinhas triste e sorumbática, certamente por algo que lhe acontecera ao longo do dia, começou, 'in continenti', a lhe ministrar , pondo-lhe as mãos sobre a cabeça e murmurando a cantilena de sempre, tão peculiar no meio. Ato contínuo, sentenciou que a pobre jovenzinha estava acometida de espíritos maus.

Senti o mesmo descontentamento e tristeza de outrora ao ouvir a triste história. Temi pela fé da garota, bombardeada por tantas heresias e enganos. Ao mesmo tempo, dei graças a Deus por me guiar cada vez mais longe dessas práticas horrorosas e nefastas.

Cada dia mais me convenço que o evangelicalismo de agora está mesmo deturpado em sua grande maioria, salvo raras exceções. O sincretismo tem avançado pelas fileiras evangélicas cada vez mais ostensivamente, sem disfarces, sutilezas.

Evangélicos se transformam em espíritas, dando vazão ao sincretismo, em busca de uma suposta comunhão transcendente com um suposto deus. Buscam experiências mais e mais esdrúxulas, sem se dar conta que ao final do caminho nada encontrarão de bom ou edificante.

E então me recordo das palavras de Cristo: "Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade". (Mateus 7. 22-23)

Continuam com a mesma necessidade de exaltação, pavoneando-se da sua "grande espiritualidade", seja orando em alta voz na igreja ou nos montes, ou "clamando" aos gritos de aleluia para serem ouvidos, evocando uma certa aura de intocável santidade. Homens com a necessidade do aplauso (clap, clap, clap), ansiosos pela admiração dos seus pares. Por todos os poros transpiram a "unção" que lhes foi transmitida pelo seu "deus".

Sobre pessoas iguais a essas, Cristo já asseverara há quase dois mil anos: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens" (Mateus 15.8-9)

Com a mesma tristeza com que iniciei este post, me vem à memória outras palavras de Jesus, quando, por esta terra de dores passou: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, , porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito ; e, uma vez feito, o tornais filhos do inferno duas vezes mais do que vós" (Mateus 23.14). "Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens , mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniquidade." (Mateus 23.27-28).

Não posso dizer que me apiedo desses tais, pois eles conhecem a verdade, mas são cegados pelo poder que a 'autoridade' lhes traz, pela busca do aplauso, pelo orgulho travestido de falsa piedade.

Que Deus, na sua infinita misericórdia, lhes abra os olhos.


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quarta-feira, 14 de julho de 2010

O verdadeiro conhecimento




Não faz muito tempo brotou uma discussão entre amigos sobre a epistemologia reformada - e confesso que foi muito acalorada - finalizando em consenso: "não há conhecimento verdadeiro fora da revelação".

O conhecimento filosófico secular responde a alguns questionamentos, mas sempre irá desaguar em um beco sem saída, a respeito, especialmente, do sentido da vida. E a pergunta sem resposta é aquela de sempre: de onde viemos e para onde vamos?

Somente o cristianismo com a revelação nos dá a resposta completa, o conhecimento absoluto, metafísico, ontológico e teleológico. Deus é a origem de tudo, é a inteligência por trás de toda a criação; é o referencial supremo, o padrão maior do que "é bom". Diante de tal grandeza não podemos traçar comparações com "o Ser", porque Ele está acima do padrão humano. Por estar ontológica e metafisicamente em um patamar de completa superioridade em relação à criação, Deus não pode ser confrontado pelas suas criaturas. O maior erro que alguns cometem é dizer que "não concordam com esse Deus tirano". Outros ainda asseveram peremptoriamente: não quero esse Deus déspota!

Portanto, voltando ao início, reafirmo hoje, como na discussão de ontem, que não há mesmo autonomia intelectual dos não regenerados, restando certo que o conhecimento secular, ainda que respaldado em fortes bases filosóficas não responde a todas as indagações, mantendo na escuridão os "sábios".

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Co 2:14).

Eis que agora lendo "A Soberania Banida", de R. K. Mc Gregor Wright, me deparei com argumentos idênticos àqueles que usamos, quando discutimos longamente sobre o verdadeiro conhecimento, forçosamente atrelado à revelação salvífica. E o mais interessante é que há um texto de Cornelius Van til respondendo a Clark Pinnock, pinçado da obra "Jerusalem and Athens" escrita por vários autores em homenagem a Van til, que vale a pena transcrever:

"Eu concordo com você que a Escritura deveria falar por si mesma. De fato, eu quero que ela nos diga o que Deus é, o que o mundo é, e o que somos como humanos, não após, mas antes de começarmos a falar de metafísica, epistemologia e ética. Pensar que eu "concebo" a fé cristã como sendo um "sistema metafísico abstrato apoiado pelo pressuposicionalismo" é confundir completamente a arremetida total do pensamento reformado. Eu observo, ao contrário, que como cristãos, devemos olhar para o mundo como o próprio Cristo o fez, e se alguém não o olhar assim ele o vê de modo falso. Consequentemente, a tentativa de encontrar Deus no mundo sem olhar através dos olhos de Cristo é inútil, não porqueo mundo não revele Deus (ele continuamente clama em voz alta sobre a existência de Deus aos homens) mas porque os homens precisam de novos olhos! " (p. 426, itálicos meus). [1]

A lembrança me veio à memória exatamente porque naquela oportunidade em que empreendemos a discussão, um dos irmãos levantou a posição de Van Til, o que me motivou ao texto de agora.


[1] R. K. Mc Gregor Wright, "A Soberania Banida" - Redenção para a cultura pós-moderna, Editora Cultura Cristã, tradução Heber Carlos de Campos, 1ª edição, 1998, p. 224.



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terça-feira, 6 de julho de 2010

Exaltação e certeza


Ainda que o meu caminho se torne em pedras pontiagudas,

que os meus pés descalços se firam,
Ainda que a noite ganhe a minha trilha,
e a escuridão se torne densa e angustiante,

Tu me guardarás!

Ainda que os meus inimigos se juntem todos contra mim,
e os amigos me abandonem,
Ainda que todas as evidências indiquem a minha derrota,
e nada mais me reste na terra,

O Senhor me sustentará!

Ainda que a aflição seja tão grande a ponto de me afogar,
qual nau à deriva em mar bravio,
Ainda que as ondas me ameacem tragar,
e as incertezas tomarem meu ser,

Tu serás o meu refúgio!

Ainda que a fé estremeça,
que o amor pereça,
que a vida sucumba,

O Senhor estará comigo, a me guardar, sustentar e refugiar!

Honra, glória e exaltação ao Eterno e Grandioso Deus!


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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quem Caim encontrou na terra de Node?



Recebi por email uma indagação do meu amado irmão Tairone Mamedes (irmão duas vezes), que faço questão de tentar responder, ou, pelo menos, desenvolver um raciocínio. Vamos a ela:

Olá, mano véio...

Eu gostaria de ter sua opinião (com fundamento bíblico), acerca de um ponto: Com quem teria se casado Caim? com quem teria se casado Sete (o terceiro filho de Adão)? É certo que não havia outras "famílias" espalhadas por aí, que não a de Adão e Eva... A bíblia afirma que foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos, e gerou filhos e filhas (Gênesis 5: 4). Portanto, é sabido que Adão gerou filhos e filhas, além de Caim, Abel e Sete. Teriam eles se casado com suas irmãs? você, estudioso que é, já se atentou pra isso? Aguardo seu posicionamento, via e-mail, ou no seu blog, que leio sistematicamente.

Abração do mano TAIRONE.

Reconheço que em uma época, há algum tempo, eu me fazia essa mesma pergunta, tentando uma resposta que me satisfizesse, mas apenas no campo das conjecturas. Tendemos a construir castelos em nossas mentes, mesmo com as verdades bíblicas, principalmente quando há lacunas no texto. E tais lacunas, tenho certeza, existem porque "Deus quis que assim fosse".

A interpretação bíblica tem como exigência lógico-exegética que nos mantenhamos dentro do próprio texto, evitando, pois, as fugas, os achismos, conjecturas e elucubrações. Nesse diapasão, vejamos o que diz o texto e o seu contexto lógico. Ou melhor, vejamos, inicialmente, o que o texto não diz:

1. o texto não diz que Caim "encontrou a sua esposa na terra de Node, ao leste do Éden, mas que a "conheceu" lá;

2. "Conhecer", no contexto bíblico, tem a ver especificamente com "coabitar", manter relações sexuais;

3. Portanto, o texto não diz implícita ou explicitamente que Caim encontrou uma civilização na terra de Node, ou pessoas, ou grupos.

Mantendo-nos estritamente no campo da hermenêutica e cuidando para não resvalarmos para os "achismos", podemos imaginar algumas possibilidades que não venham, obviamente, a obliterar o texto bíblico, tampouco subvertê-lo.

Há duas possíveis linhas de pensamento: Caim poderia ter levado uma de suas irmãs consigo, posto que tanto o texto como o contexto escriturísticos não eliminam a possibilidade de isto ter ocorrido. Por outro lado, não há como determinar o lapso de tempo entre a morte de Abel, a culpabilização de Caim por Deus e a sua eliminação do seio da família (fuga), o que possibilita perfeitamente que, quando da consumação da fuga o casal primevo poderia já ter gerado muitos outros filhos e filhas. A segunda possibilidade é que, entre a fuga e a chegada à terra de Node, pode ter decorrido um longo tempo, mesmo gerações, tendo em vista a longevidade daqueles povos (Adão viveu mais de oitocentos anos). A segunda linha, subproduto da primeira, leva em conta exatamente esse longo período decorrido entre a fuga de Caim e a sua chegada à terra de Node "onde 'conheceu' a sua mulher , tendo ela concebido.

Com efeito, se esse lapso temporal foi longo - o que é perfeitamente plausível - novas gerações provenientes da semente de Adão e Eva podem ter sido formadas, habitando todas aquelas terras, povoando os arredores e promovendo ajuntamentos de pessoas. E, ali chegando Caim, escolheu uma das mulheres , com a sua mesma herança genética, para coabitar com ela. Esse raciocínio não encontra qualquer óbice escriturístico. E digo mais, tem até respaldo científico, uma vez que as ciências naturais reconhecem que todas as pessoas provém de um "tronco comum".

O que não é possível conceber , como querem os liberais e até mesmo uma facção "cristã", é que o texto em referência (genesis/criação/ Adão e Eva) seja apenas uma "alegoria", não significando que efetivamente toda a criação tenha se originado do casal primeiro, mas, ao contrário, de um 'único indivíduo". Eis , pois, segundo essa teoria, que o substantivo "Adão" , longe de se caracterizar como nome próprio, figuraria na verdade, entre os diversos termos para designar o gênero humano. Esta é uma falácia extra-bíblica que sequer vale a pena refutar pelos motivos em epígrafe citados e que ofendem a boa hermenêutica.

Veja que tanto uma como outra, das duas opções expostas acima, são absolutamente plausíveis, especialmente se considerarmos a longevidade dos descendentes de Adão, que foram citados na Bíblia (uma vez que somente alguns constaram no texto bíblico): Set chegou a 912 anos, Enos a 905, Cainã a 910 e Matusalem aos 969 (Gênesis 5:8 - 27). Todos eles tiveram filhos em idades avançadas: Enos aos 90, Cainã aos 70, Malalael aos 65, Matusalem aos 187. Noé, por seu turno, gerou seu primogênito aos 500 anos de idade(Gênesis 5:32), não sendo superado por ninguém (pelo menos daqueles citados na Bíblia).

Portanto, espero ter respondido à sua indagação, mas reconheço que a certeza é impossível. A única certeza, pelo menos para mim, é que uma das duas opções é a verdadeira, partindo do princípio que a Bíblia não mente, tampouco as suas verdades podem ser consideradas "alegorias".

Grande abraço, querido irmão!


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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Prometo...




Hoje é dia 24 de junho de 2010. Esta data me faz recordar outra data: 24 de junho de 1995. O dia me remete a um grande e profundo sentimento de alegria incontida... A história das nossas vidas é pontuada por datas, os momentos são gravados e "salvos" no HD da nossa memória.

Quinze anos se passaram e tranquilamente eu poderia demarcar a minha existência entre antes e depois. Até 24 de junho de 1995, havia um Ricardo buscando se encontrar nos prazeres passageiros, na realização fugaz dos sentidos, nas experiências transitórias da vida jovem. E permeando tudo isso, um profissional em início de carreira tentando se fazer conhecido nos meios forenses, na região de atuação.

Ainda não havia qualquer cicatriz na alma, nada que fizesse rememorar um passado a ser lembrado. Faculdade terminada, pequenos aprendizados, adaptação à vida verdadeiramente adulta. E mais nada...

Porém, em 24 de junho de 1995, começa uma história nova, agora a dois. Eu e a minha namorada/noiva resolvemos nos fazer marido e mulher. Aquela garotinha que eu havia conhecido há quase cinco anos, menina-moça de apenas 16 anos, agora uma mulher, deu-me o ultimato: ou casa ou desocupa (rsrsrsrs)!

Não havia outro jeito, coração fisgado, mentes unidas, risos simultâneos, éramos já um quase complemento de nós mesmos. O "eu" já passara a ser "nós", e mudado o pronome não há mais como transigir. Desistir de ir em frente seria como mutilar a alma... melhor casar e continuar inteiro, completo.

E era um grande negócio, afirmo categoricamente. Minha alma gêmea era uma linda loiraça de 1.70, cabelos esvoaçantes, e tantos outros predicados que somente a mim interessam. Além dessas virtudes visíveis, outras tantas eram-lhe peculiares, como um caráter sólido, personalidade firme e valores familiares valiosos.

Casamos há exatamente 15 anos. Hoje é nosso aniversário de casamento. Uma vida dividida, praticamente 20 anos de convívio entre namoro e casamento. Afinidades , percepções de mundo extremamente semelhantes; a mesma apreensão do Divino. Tornamo-nos então parceiros incondicionais. Momentos de rusga, brigas, descontentamentos? Muitos. Crises? Muitas outras. Amor? Sempre.

Caminhamos até aqui de mãos dadas. Juntos e cúmplices, a despeito das "intempéries".

Hoje a nossa relação é muito mais sólida, adulta, não somente porque temos duas filhas maravilhosas (Sarah e Isadora) que vieram de nós, presenteadas pelo Eterno, mas também porque o tempo, tal qual faz com o vinho, tornou mais precioso o sentimento que nos une. Eu diria que ficou bem mais "saboroso".

E há um fato especial nessa nossa história: eu conheci Deus de uma forma que antes não houvera conhecido. Conheci o Deus da graça, e esse Deus me completou, fazendo de mim um novo homem. Antes "conhecia" Deus, mas lutava para alcançá-lo, para merecê-lo, qual um navegante em "mares nunca dantes navegados": mar de incertezas. Esse conhecimento se transportou para o meu casamento, fazendo com que o amor de ontem, ainda trôpego, claudicante, se transformasse na rocha sólida de hoje, alicerçado na outra Rocha que é Cristo Jesus, o nosso Salvador.

Por isso, hoje é um dia especial em todos os sentidos, pois há 15 anos eu me casei com a Luciana, minha eterna companheira, minha musa, meu amor. Sem medo de ser piegas e talvez até sendo (quem liga?) eu repito: você é o grande amor da minha vida.

Que Deus nos mantenha unidos para sempre, sob os Seus cuidados e a Sua proteção. E que "não seja apenas eterno enquanto dure". Mas que seja eterno além do tempo, "posto que é chama... mas chama inextinguível".

Ps: Posso afirmar que a loira de hoje é ainda mais bela que aquela de ontem.



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