sábado, 5 de fevereiro de 2011

Um diálogo - Sr. White, Sr. Black, Sr. Grey



*Cornelius van Til

Temos, primeiro, o não cristão, que cultua a criatura em vez do Criador. Vamos chamá-lo de Sr. Black. Poderá ser um tipo de pessoa bem "decente". Em função da graça comum ele pode fazer muita coisa "boa". Ainda assim, conquanto permaneça em seu estado de não-conversão, ele será tenebroso aos olhos de Deus.

Entretanto, temos um representante daqueles que, pela graça de Deus, tornaram-se adoradores do Criador-Redentor. Será o Sr. White. Certamente, ele está distante de ser aquilo que poderíamos esperar devido ao seu nome. Mas ele foi lavado no sangue do Cordeiro. Em Cristo, ele é alvo como a neve. O Sr. White é um cristão reformado.

Estranhamente, porém, há uma terceira parte, um arminiano, chamado Sr. Grey. Certamente, em Cristo, o Sr. Grey é tão alvo como o Sr. White. O primeiro, acha que o Sr. White é muito severo na avaliação do Sr. Black, mas ele próprio crê que o Sr. Black não seja assim tão tenebroso.

Sequer seria correto, política ou pedagogicamente, requerer que o Sr. Black fizesse uma virada de mente tão completa. Certamente, nem será necessário que tal revolução seja completa nos campos das ciências e filosofias. Muitos dos seguidores do Sr. Black têm defendido valentemente a existência de Deus contra o materialismo, o ateísmo e o positivismo. Até mesmo em teologia, muitos desses discípulos do Sr. Black saltaram em defesa quando Deus foi atacado pelos teólogos do Deus-está-morto. O Sr. Grey, portanto, tipifica o metódo de Aquino-Butler de defesa do cristianismo.

Vamos observar agora a diferença na maneira do Sr. White e do Sr. Grey abordarem o incrédulo Sr. Black com o Evangelho de Cristo.

Digamos que o Sr. Black esteja com dor de dente. Ambos, o Sr. White e o Sr. Grey são dentistas. O Sr. White crê em uma metodologia radical. Ele crê que o Sr. Black deveria ter toda cárie removida dos dentes, antes de obturá-los. O Sr. Grey é uma pessoa mais sensível e carinhosa. Ele não quer que o Sr. Black se sinta mal e, por isso, não quer que a broca penetre tão fundo no dente. Ele, certamente, retirará apenas uma parte da matéria deteriorada, e preencherá a cavidade.

Naturalmente, o Sr. Black achará tudo isso maravilhoso. Infelizmente, o dente do Sr. Black em breve continuará a deterioração. Ele retornará ao Sr. Grey, mas este jamais chegará a um procedimento radical. Por conseguinte, ele jamais resolverá o problema do dente do Sr. Black.

Suponha, agora, que, em vez de procurar o Sr. Grey, o Sr. Black tenha ido ao consultório do Sr. White. Este é radical, muito radical. Usa máquina de raios-X para diagnosticar as condições da boca do Sr. Black. Perfura o dente o quanto é necessário para remover toda a matéria deteriorada. A cavidade é preenchida. E o Sr. Black jamais precisa retornar por causa daqueles dentes.

Esta simples ilustração aponta para uma verdade básica. A Bíblia diz que o homem está espiritualmente morto em seus delitos e pecados. Os credos reformados falam de uma depravação total do homem. A única cura para a sua morte espiritual é a regeneração realizada pelo Espírito Santo, na base da morte expiatória de Cristo. É por meio da luz que a Escritura lança sobre a condição do homem natural que o Sr. White examina todos os seus pacientes. Ele poderá também ligar a luz da experiência, mas insistirá sempre que a experiência deva ser derivada, primariamente, da luz da Escritura. Assim, ele poderá apelar à razão ou à História, mas, de novo, somente da maneira que elas são vistas à luz da Bíblia. Ele nem mesmo toma a experiência, a razão ou a História para corroborar os ensinos da Escritura, mas a Bíblia para examinar todas essas operações. Para ele, a Bíblia e, portanto, o Deus da Bíblia, é como o sol do qual derivam a luz das lâmpadas de óleo, de gás e a lâmpada elétrica.

A atitude do arminiano, Sr. Grey, é bem diferente. Ele usa a Bíblia, a experiência, a razão ou a lógica como fontes de informação igualmente independentes sobre os próprios predicamentos e, portanto, os do Sr. Black. Isto não quer dizer que, para o Sr. Grey, a Bíblia, a experiência e a razão sejam igualmente importantes. Na verdade, não são. Ele sabe que a Bíblia é, de longe, a mais importante. Porém, não obstante, ele constantemente apela aos "fatos da experiência" e à "lógica" sem lidar primeiro com a própria ideia de fato e com a ideia de lógica, nos termos da Escritura.

A diferença é básica. Quando o Sr. White diagnostica o caso do Sr. Black, ele toma como máquina de raios-X, somente a Bíblia. Quando diagnostica o caso do Sr. Black, o Sr. Grey toma primeiro a máquina de raios-X da experiência, depois, a máquina de raios-X da lógica, e finalmente, a máquina de raios-X maior, a Bíblia. De fato, ele poderá tomar tais ítens em qualquer ordem, mas sempre haverá de considerá-los como sendo fontes de informação independentes.
(...)
Entretanto, quando o cristão reformado, o Sr. White, tem consciência das riquezas da própria posição, e, realmente, tem a coragem de desafiar o Sr. Black, apresentando-lhe uma chapa de raios-X do seu interior tirada com uma máquina chamada Bíblia, ele enfrenta a acusação de "raciocínio circular". Ele não apresenta nenhum "ponto de contato" com a experiência. Ele será, também, objeto de crítica do arminiano, por falar como se o cristianismo fosse irracional e por falhar em alcançar o homem das ruas.
(...)
O conceito arminiano de expiação substitutiva é colorido, e nós, como calvinistas, creríamos "descolorido", segundo a visão do "livre arbítrio". Segundo a visão arminiana, o homem tem poder absoluto ou final para aceitar ou rejeitar a salvação que lhe é oferecida. Isso implica que a salvação oferecida ao homem é mera possibilidade de salvação.

Para ilustrar: suponha que eu deposite um milhão de reais em sua conta bancária. Ainda assim, fica ao seu critério crer que tal riqueza lhe pertença, e usá-la para cobrir o chão de sua casa com tapetes persas, em vez de fazê-lo com os velhos tapetes puídos que você tem agora. Assim, no esquema arminiano, a própria possibilidade das coisas não mais dependem exclusivamente de Deus, mas, em algumas áreas, dependem do homem. O efeito daquilo que Cristo fez por nós é feito dependente de nós. Não é mais certo dizer que, para Deus, todas as coisas são possíveis.

Fica óbvio, portanto, que os arminianos levaram para o seu protestantismo uma boa porção do levedo do catolicismo romano. O arminianismo é menos radical e menos consistente em seu protestantismo do que deveria ser.

Ora, o Sr. Grey, o evangélico, parece estar confortável quando tenta conquistar o Sr. Black, o incrédulo, à aceitação do "sacrifício substitutivo". Ele pode firmar os pés em "chão comum" com o Sr. Black em termos daquilo que é possível ou impossível. Observe o Sr. Grey enquanto fala com o Sr. Black.

"Sr. Black, porventura já aceitou Jesus Cristo como seu salvador pessoal? Crê que ele morreu na cruz em seu lugar? Se não, certamente estará perdido para sempre."

"Bem", responde o Sr. Black, "acabei de receber uma visita do Sr White, falando sobre o mesmo assunto. Vocês parecem ter um 'testemunho comum' sobre a matéria. Ambos creem que Deus existe, que ele criou o mundo, que o primeiro homem, Adão, pecou, e que todos nós merecemos o inferno por causa do que esse homem fez, e daí em diante. Tudo isso me parece muito fatalista. Se, como você diz, eu sou uma criatura, então, não terei nenhum poder final para escolher. Não sou livre. E se não sou livre, então, não sou também responsável. Assim, se eu for para o inferno, será simplesmente porque seu 'Deus' assim determinou. Vocês, cristãos ortodoxos, matam a moralidade e todo progresso humano. Não quero ter nada com isso. Até logo!"

"Ei! Espere um pouco", diz o Sr. Grey afobado. "Eu não tenho um ponto de vista em comum com o ponto de vista calvinista. Nós dois, sim, temos um testemunho comum contra o calvinismo quanto ao determinismo mencionado. É claro que você é livre. Absolutamente livre para aceitar ou rejeitar a expiação que lhe é oferecida. Você mesmo terá de torná-la real para a sua vida. Concordo com você, contra o calvinismo, dizendo que a 'possibilidade' é maior do que a vontade de Deus. Nem por um momento eu diria com os calvinistas que o conselho de Deus determina tudo o que se passa."

*Extraído da obra "O Pastor Reformado e o Pensamento Moderno" , 1ª edição, 2010, traduzido por Wadislau Gomes, São Paulo, Cultura Cristã, p. 42-50)

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pequeno desabafo sobre grandes fraquezas


A vida cristã é uma caminhada longa, permeada de espinhos, uma trilha quase inacessível. Por vezes nos alegramos ao imaginar que a trilhamos bem, outras vezes, sequer acreditamos que ainda permanecemos nela, mais parecendo que pegamos o "atalho" que nos leva à via larga e bem pavimentada.

É doloroso, pelo menos comigo, observar que ainda estou a cometer velhos erros quase relegados ao esquecimento, conquanto pensasse que já havia ultrapassado essa "fase". Por quê? Por que ainda os cometo se tenho Cristo na minha vida e sinto-o constantemente a "acordar" a minha consciência outrora entorpecida?

E então me dou conta que a velha natureza está aqui latente, bastando um pequeno "cochilo" para que ela volte com a sua antiga sanha. Sinto claramente a batalha travada constantemente com esse "eu" teimoso, essa carne maldita, contaminada pelo pecado. Os erros de outrora aflloram, o "espinho" começa a latejar na carne, a fúria e a ira vencendo o equilíbrio e a temperança... E então penso, logo após a descarga, o rompimento do dique de emoções que escoam (e ecoam) pela boca em duras palavras: miserável homem sou!

Não é preciso que me digam nada, nem que seja confrontado com o pecado, passada a fúria, pois eu mesmo me encarrego de esbofetear-me, rugindo intimamente contra a intemperança. E não há tapa que doa mais do que aquele que damos em nós mesmos.

O pior de tudo é sentir que se retrocedeu na vida cristã, um sentimento de retorno à estaca zero que nos faz duvidar do caminho que antes seguíamos: - por onde sigo, é esta mesmo a estrada ou me embrenhei por estrada errada?

Por que não resisto ao latejar da ira se sei previamente que o resultado será amargo? Por que sentimentos sepultados, condutas dessarraigadas teimam em brotar dando ensejo ao antigo homem?

Novamente me dou conta que sou nada! Vejo claramente que o controle que pensava ter cai por terra diante da mínima provocação, quando abandono a dependência necessária, quando imagino que sou autossuficiente , esquecendo-me de recorrer à bondade e misericórdia do Criador. Nesses momentos, passada a tempestade - como agora - eu me envergonho profundamente de me declarar cristão. Aliás, quase chego mesmo a duvidar disso...

Quando busco o bem por minhas próprias capacidades, quando tento caminhar sozinho, tropeço, retornando à certeza de que a minha justiça não passa de trapo de imundície. E torno a me enxergar pequeno e miserável, e a imagem que vejo refletida no espelho da minha mente é feia , quase horripilante. Sou nada! Parece que todo o caminho longamente percorrido não passa de alguns insignificantes metros. Em alguns momentos, sinto como se tivesse andado em círculos, voltando ao ponto inicial...

O bem que quero não faço, mas o mal que não quero...

Há pouco li num blog de um amigo que é muito fácil debater aqui neste mundo virtual, pois, ainda que os ânimos se exaltem, há uma linha imaginária demarcada, que as pessoas não querem e sabem que não devem ultrapassar, salvo raras excecões. Na vida cotidiana é que o "fruto" será percebido ou não. É lá que os espinhos serão mais certeiros. E a resistência duramente conseguida pode ser, em um momento, destruída. Cedem os diques, prorrompem as águas a levar consigo tudo o que vem pela frente. E basta um único momento assim para nos trazer desânimo e incertezas

Passada a tormenta, ainda que desesperados, desanimados, desvanecidos, faz-se necessária a reconstrução.

Nesses momentos, o melhor é lembrar novamente dos conselhos do apóstolo: quando sou fraco é que sou forte, pois é na fraqueza que sou aperfeiçoado - ainda que duvidemos disso.

Quando a minha segurança está alicerçada nas minhas próprias forças, mesmo que inadvertida ou involuntariamente, Deus me faz lembrar que fora dEle tudo é efêmero, fugaz, etéreo. Eis que me volto para Ele pedindo misericórdia: tenha misericórdia de mim SENHOR!

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Breve balanço do ano que passou e expectativas para o vindouro


É difícil analisar o que fizemos e deixamos de fazer com verdadeira imparcialidade. Tendemos a dar maior peso ao que fizemos de bom e passar ao largo do que não nos traz boas recordações, relativizando as atitudes e eventos que nos causam vergonha.

O que fiz de bom e de mau neste ano de 2010? Impossível enumerar com fidelidade, pois os eventos se sucedem com grande rapidez. Posso ter uma visão geral, um sentimento sobre o todo, a capacidade de pesar os eventos e atitudes, e ainda assim não ser completamente imparcial; eis que estou falando de mim mesmo .

Incorri em erro, muitas vezes, indo além do que deveria. Cometi o pecado do excesso ao dizer o que penso com extrema crueza. Fui julgado duramente nessas oportunidades e outras vezes julguei com igual dureza. Fui contraditório tantas vezes e outras ainda, julgado contraditório sem ser.

Tentei acertar sempre, mas é claro que nem sempre consegui. Outros acham que podem e se julgam quase perfeitos, ou mais, fazendo um juízo superlativo de si mesmos.

Errei, errei e errei. Arrependi-me de não me calar quando deveria. Gritei e fiz retumbar a minha "voz" quando o melhor seria ter calado. Sou esta espécie estranha que compõe a humanidade, cheio de altos e baixos; caindo e levantando.

Acertei em inúmeras oportunidades. O balanço , o inventário não posso fazer. Tenho apenas uma visão geral dos acontecimentos. Espero ter acertado mais e errado menos do que gostaria. Há muitos que pensam não errar, colocando-se em um patamar em que simples mortais não podem alcançar.

Tenho alguns amigos, os quais admiro, aprecio verdadeiramente. Tenho muitos irmãos que verdadeiramente amo. Mas não pertenço a nenhum "gueto", nem corporação. Consigo avaliar as coisas com honestidade, sem pender para lá ou para cá, ao sabor das minhas paixões. E é muito mais fácil ser aceito pelo "grupo", ou por um grupo, quando você pertence a ele. Eu não pertenço a nenhum, apenas tentando ser leal aos valores cristãos que me guiam. E ainda assim, erro, erro e erro.

Sou menor do que gostaria e maior do que muitos medem. Sou ainda muito menor do que a medida que muitos amigos e irmãos imaginam que tenho: a "fita métrica" deles é generosa...

A tantos que leram os despretensiosos textos publicados neste humilde espaço durante o ano de 2010, obrigado. Agradeço sinceramente. Cada comentário aqui publicado fez a minha alegria, ainda que não concordando com os meus textos. Cresci com a diversidade, com as diferenças, com o inusitado. Cresci ao saber que tantos pensam muito melhor do que eu mesmo; e com a grandeza de alguns pude enxergar a minha própria pequenez. E, enxergando as minhas mazelas, a minha insignificância, segui adiante. E cresci.

Tenho as minhas convicções bem firmes, bem plantadas e elas caminham de encontro ao Verdadeiro e único Evangelho. Quero continuar assim, ainda que propenso a mudar para melhor. Critico e sou criticado; estou aqui exposto e estou sendo avaliado, mas igualmente medirei quem me avalia. É..., todos temos "lentes" - e não quer dizer que as do meu oponente no debate sejam mais claras do que as minhas. Se achar que são embaçadas, direi. Aceito, igualmente, que digam o mesmo das minhas.

Continuarei por aqui até quando Deus quiser, rogando a Ele que me dê sabedoria, equilíbrio e sensatez.

Que o próximo ano seja repleto de Deus em nossas vidas. Que aprendamos, cada dia mais, a depositar nEle as nossas expectativas, pois o seu jugo é leve e as suas promessas jamais falham.

Um abraço a todos . Cristo seja a nossa luz e que possamos refleti-la. Ousemos no próximo ano e que não sejamos insossos e insípidos, mas que possamos temperar este mundo.

Ricardo Mamedes.


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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Explicações necessárias: teonomia, fariseus e amigos


A crítica de modo geral é uma coisa complicada, seja no pólo ativo ou passivo. Ora criticamos e ora somos criticados, e em ambos os casos as consequências podem ser inesperadas. Outras vezes os pólos mudam rapidamente, passando de críticos a criticados e vice e versa.

A pequena introdução vale como tentativa de explicar um episódio que ocorreu em alguns blogs reformados dias atrás, quando alguns irmãos se desentenderam em torno da "teonomia": uns se colocando favoráveis a uma determinada visão, enquanto outros defendendo o seu próprio ponto de vista, com interpretações completamente diversas.

E foi em meio a um desses embates que "aportei" no blog "5 Calvinistas" (5calvinistas.blogspot.com), deparando-me então com um texto da lavra do Reverendo Helder Nozima com o título: Internautas cristãos ou fariseus do século XXI? Confesso que estranhei o título do post, porque vi uma clara vinculação aparentemente depreciativa a um outro blog de viés reformado (http://internautascristaos.blogspot.com).

Recentemente tive um duro debate com um irmão arminiano a respeito das doutrinas que tenho como regra de fé, estando mesmo acometido de certo desânimo com as discussões entre irmãos a desaguar em mágoas, ressentimentos e, quando não, em rompimentos definitivos. Porém, no caso destes irmãos, tratam-se de pessoas que professam a mesma fé, todos reformados, com cosmovisões muito assemelhadas ou mesmo idênticas. Fiz então a minha pequena crítica lá naquele post e escrevi um texto no meu blog, não específico (aqui), criticando de certa forma o "tom" usado pelo Reverendo Helder contra os seus oponentes. Vale salientar que não fui compreendido , pois , ao mesmo tempo em que me alinhava com o Helder na questão da teonomia, exortava-o a usar um tom mais comedido com o(s) irmão(s).

Logo depois da discussão que tivemos eu e o Reverendo Helder Nozima em meu blog (ver comentários aqui), voltamos a interagir, quando fui informado por ele que a "querela" já vinha se desenrolando há algum tempo, com acusações de parte a parte - fato que eu desconhecia. E nesse ponto, sou obrigado a reconhecer que assiste razão ao Helder em não compreender a minha crítica. Sim, havia fatos pretéritos que eu desconhecia (ver posts: aqui, aqui , aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui ). Eis que fiz uma crítica àquele escrito sem me atentar para as causas anteriores - e nesse ponto faço o meu "mea-culpa" com o Reverendo Helder Nozima. Devo-lhe um pedido de desculpas, que faço publicamente neste momento.

No entanto, não aceito as acusações igualmente feitas no sentido de que eu estivesse de certa forma apoiando o oponente (Internautas Cristãos), por ter com seu editor uma relação de proximidade em razão de editarmos um blog comum ("Leitores da Bíblia"), ou, ainda, por posicionar aquele blog na lista de "favoritos" do meu blog pessoal. Ser parcial não é mesmo do meu feitio, como afirmei ao Helder naquela oportunidade, posto que estimo e considero a ambos. Se, porém, o segundo critério para a propalada "parcialidade" é manter o "Internautas Cristãos" na lista de favoritos, igualmente não procede a acusação, pois mantenho na mesma lista e há muito mais tempo o blog pessoal do Reverendo Helder Nozima, "Reforma e Carisma".

Em todo o imbróglio, há algo que merece referência e explicações da minha parte: o uso de imagem idêntica em meu post, à daquele post com crítica ao Helder ( aqui e aqui ). Há coincidências que não podem ser explicadas, se é que elas existem. O fato é que eu não havia lido aquele texto, não o havia visto e sequer jamais havia acessado aquele blog, até onde me lembro. Todavia, reconheço que o Helder possuía todos os elementos para concluir que eu estivesse "alinhado" aos seus oponentes, o que não procede. A verdade é que a nossa mente pode criar situações inexistentes a partir de ilusões e coincidências.

Por fim, reafirmo que me alinho às argumentações do Reverendo Helder Nozima no que concerne à "teonomia", da forma como é defendida por seus oponentes. Ou melhor, para ser bem claro, sou contra pelos mesmos motivos longamente explicitados nos textos declinados nos links em epígrafe, provenientes do "5calvinistas". E, quanto ao tom, retiro a minha crítica, depois de saber de todas as controvérsias e textos anteriores.

Outrossim, espero que todos nós possamos conviver em harmonia, ou pelo menos em "harmoniosa disputa", quando for o caso, ainda quando não for possível o consenso. Sem esquecer que a nossa meta é expandir o verdadeiro Evangelho, anunciando a boa nova a todos.

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Graça e soberania divina


Já faz algum tempo que decidi terminantemente não tratar de questões reformadas com arminianos confessos e convictos, especialmente no que concerne a predestinação e eleição; enfim, não discutir com eles as doutrinas da graça. É que os tais nos acusam de heresias, mesmo quando nos firmamos exclusivamente em textos bíblicos devidamente contextualizados. Os arminianos, no entanto, não somente descontextualizam os seus, como atropelam os nossos.

Cansei das longas discussões. Outrora eu ainda travava os tais embates em ótimos blogs reformados como o cinco solas, mas verifiquei que nada se produzia, uma vez que os oponentes continuavam cada vez mais empedernidos na sua cosmovisão, resistindo veementemente aos próprios textos bíblicos com argumentos extra-bíblicos ou inteiramente incoerentes, no afã de se agarrarrem, qual náufragos, em sua pequena tábua. E então, mantive-me quase recluso, restrito às trocas de experiências com irmãos reformados e alguns poucos que não se definem teologicamente e tampouco querem fazê-lo - e eu os respeito, pois são ótimos cristãos.

Acredito que não é a nossa cosmovisão que nos leva a Cristo, mas o próprio Cristo, por intermédio da graça proveniente de Deus-Pai (Efésios 2:8-9). Temos uma vontade real e fazemos escolhas "livres", porém não-autônomas. Grosso modo, defino isso de graça, proveniente de um Deus absoluta e irresistivelmente soberano.

Pois é, fiel à minha opção de não discutir com arminianos as doutrinas da graça, dia destes voltei a um blog de viés arminiano para discutir um texto de autor reformado, versando sobre a perseverança dos crentes. Postei o meu comentário concordando com o texto e associando graça a soberania, o que bastou para que uma longa discussão se travasse em razão do meu comentário, pois, segundo o crítico, a minha associação denotava uma visão estreita. Não estou aqui a combater o crítico, mas a provocação me fez refletir sobre o assunto, dando azo a este despretensioso texto que não quer ser um tratado teológico - que fiquem bem claras as duas afirmações.

E depois de muito refletir, não somente volto a afirmar como a corroborar que graça e soberania divinas estão inapelavelmente associadas, na medida em que a primeira ação é, por força de definição simples, " favor imerecido para a salvação", enquanto que a soberania é a ação que provém de Deus sem encontrar limites, obstáculos ou entraves. Portanto, graça está associada à soberania de Deus na medida em que provém essencialmente dEle; somente Deus pode concedê-la à criatura mediante o seu beneplácito (Filipenses 2:13). À luz da passagem bíblica citada, Deus, exclusivamente Ele, possui a capacidade de efetuar em nós tanto o querer como o realizar.

Vejamos mais especificamente a definição dos termos graça e soberania divina tanto pelo "Dicionário Bíblico Almeida" , como também a raiz das palavras no original hebraico e grego (Strong):

GRAÇA (DBA2) - 1) O amor de Deus que salva as pessoas e as conserva unidas com ele (Sl 90.17; Ef 2.5; Tt 2.11; 2Pe 3.18).
2) A soma das bênçãos que uma pessoa, sem merecer, recebe de Deus (Sl 84.11; Rm 6.1; Ef 2.7).
3) A influência sustentadora de Deus que permite que a pessoa salva continue fiel e firme na fé (Rm 5.17; 2Co 12.9; Hb 12.28).
4) Louvor; gratidão (Sl 147.7; Mt 11.25).
5) Boa vontade; aprovação MERCÊ (Gn 6.8; Lc 1.30; 2.52).
6) Beleza (Pv 31.30).
7) Bondade (Zc 12.10).
8) “De graça” é “sem pagar” (Gn 29.15; Mt 10.8).
(Strong) - 02580 חן chen
procedente de 2603; - 694a; n m
1) favor, graça, charme
1a) favor, graça, elegância
1b) favor, aceitação


SOBERANIA (DBA2) - 1) Domínio; autoridade (Jd 25). 2) POTESTADE 1, (Cl 1.16, RA).
(Strong) - 04467 ממלכה mamlakah
procedente de 4427; - 1199f; n f
1) reinado, domínio, reino, soberania
1a) reino, domínio
1b) soberania, domínio
1c) reino


Portanto, a meu ver, graça somente pode vir de Deus; é qualidade e capacidade personalíssimas do Criador; Ele, tem, pois, domínio na distribuição da referida graça, que não pode ser distribuída por ninguém mais. Portanto, repito, corroboro e reafirmo, que não há como não associar os dois termos ao seu único autor. Assim, forçoso reconhecer que "Deus tem domínio sobre a graça"; esse direito na aplicação de tal beneplácito é exclusivo dEle.

O fato de afirmar ou fazer tal associação não tem o condão de colocar-me em confronto ou em conflito com os meus irmãos arminianos por si só, como ocorreu naquela oportunidade em que fui acusado de ter visão estreita.

A minha afirmação feita acima, antes de se qualificar como provocação aos arminianos, é a prova inconteste da cosmovisão que tenho: sou reformado e creio na "depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e na perseverança dos santos". Entretanto, o ponto em que se deu a discordância, conforme consigo depreender (embora não sendo fácil, tendo em vista a incoerência da afirmação) é a graça associada à soberania de Deus e perserverança dos crentes (santos). Como se o fazer a afirmação fosse uma "heresia". Mas também é fato que, ao afirmar os cinco pontos que dão origem ao calvinismo, automaticamente nego os pontos em que se afirmam aqueles com a cosmovisão arminiana, sem que isso possa ser confundido com provocação. É simplesmente consequência natural, uma vez que ambas as cosmovisões são excludentes.

Não posso negar, sob pena de incorrer em grave farisaísmo, que a posição arminiana se apresenta aos meus olhos como absolutamente inconsistente, biblica, exegética e hermeneuticamente. Normalmente os arminianos são meio que híbridos em sua soteriologia. Costumo observar que alguns deles afirmam e acatam a depravação total, enquanto negam a graça irresistível, para, evidentemente, negar aquela minha afirmação primeira (associação entre graça e soberania divina). E é bem nesse ponto que se dá a maior incoerência, pois em se considerando a depravação (total) da humanidade pós-queda, não há a menor capacidade de autonomia humana (livre arbítrio) no processo salvífico (Romanos 3-10-12 , 23). Porém, vá fazer com que eles entendam...

Difícil imaginar que um bando de mortos espiritualmente possa ter em si mesmo algum resquício de capacidade, estando mortos. E é nesse ponto que os apóstolos Paulo e João são irrefutavelmente claros:

Efésios 2: 1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.

Romanos 5: 12 Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
Romanos 5: 15 Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos.
Exatamente por estarem mortos e sem qualquer capacidade para escolher crer ou se salvar é que Deus, na sua completa e absoluta soberania e poder, chamou alguns dentre pecadores, por intermédio da graça (irresistível) para que sejam salvos (Romanos 9:11-23), enquanto outros foram reprovados:

João 17: 8 porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. 9 É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.

João 6: 37 Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.
João 6: 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.
A fé não é de todos porque Deus não a concedeu a todos , mas apenas aos seus eleitos (Tito 1:1-2 e 2 Tessalonicenses 3:1-2). E aqueles que vêm a crer fazem-no pelo chamado de Deus (...e esse virá a mim).

A eleição não tem a ver com nação ou igreja , mas com indivíduos; o contexto bíblico de modo algum leva a esse entendimento torto, senão tortuoso (Romanos 8:28-30, 9:11-23). Aqueles que assim entendem, de certa forma tornam esse Deus mais "injusto" ainda, ao eleger uma universalidade.

Portanto, afirmo, reafirmo e corroboro, exclusivamente firmado nas Escrituras, obedecido o seu contexto imediato e mediato, que ninguém pode resistir à graça, não pode escolher ter fé por seus próprios meios e méritos, por estar morto espiritualmente; e que esse mover cabe exclusivamente a Deus, através de Cristo, morto e ressurreto.

Quanto à discussão com arminianos, continuo cada vez mais renitente em tê-la.

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Mea maxima culpa"


Confesso que sou culpado, a falha é toda minha... sou culpado quando me embrenho em longas e cansativas discussões que nada acrescentam ao meu conhecimento e tendem a fazer-me menor do que sou - e olha que não sou lá grande coisa!

Reconheço a minha culpa, a minha máxima culpa.

Sou ainda mais culpado por me entediar com as tais discussões, e ainda assim, deixar que o tédio inicial se transforme em ira. Mereço a gastrite de agora! E mais, mereço a ausência do bom sono de outrora...

A culpa é toda minha, ao me deixar enredar inutilmente pelas provocações infantis, quando a melhor opção seria sair de fininho, sem tocar o sininho, bem caladinho ...

Sou culpado por ser reformado. Sou xingado, pisado, escamoteado!

Por ser calvinista, acusam-me o ser capitalista; de não ter "amor", e o pior de tudo, ser conservador. Ó que dor!

Doravante, porém, evitarei o ignorante, com as suas mesuras, falsas e impuras.

Da mente dormente do ser maldizente, correrei além do poente do sol reluzente.

Se porventura aquela alma impura, fazendo mesura aqui vir toda pura, ah, levará uma "dura"!

E tenho dito, senhor Expedito, ou será o Benedito???


Ps: a partir de agora, vou rir pra não chorir - opa, chorar!

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sobre Cristo e sobre calvinismo




É tempo de falar de Cristo, sempre é tempo. É tempo de falar de bondade e de amor. É impossível falar de Cristo e ao mesmo tempo negligenciar bondade e amor, ou tornar-se indiferente a tais sentimentos e ainda assim anunciar-se como cristão.

O calvinismo é o reflexo mais perfeito do único e verdadeiro Evangelho. O Evangelho é Cristo e Cristo é amor e é bondade. O Cristo que veio e se esvaziou, tornando-se homem e suportando as mais vis humilhações para salvar o mesmo homem que o crucificou. Ora, por isso mesmo o Evangelho é loucura para o homem que não crê. Para mim, no entanto, o Evangelho é belo e maravilhoso, porque é a minha salvação em Cristo. Eu preciso anunciá-Lo para tantos quantos queiram ouvir...

Tão grande salvação a mim ofertada gratuitamente, mesmo sendo eu pecador, requer que eu glorifique a Deus incessantemente, que eu reconheça nEle a plena soberania, e que eu me diminua cada vez mais, tal como João, o Batista...

O Cristo crucificado não permite que eu me vanglorie, tampouco que me ensoberbeça. Cada gota do seu precioso sangue derramado na cruz do calvário exige de mim um esvaziamento do maldito "eu", capaz de me induzir à soberba e arrogância , quanto mais me sinto autossuficiente. Eis que fui comprado e resgatado por grande preço.

Ultimamente tenho visto alguns amigos cristãos calvinistas armados com a sua sabedoria a digladiarem entre si. A arena é este espaço virtual, as espadas afiadas as letras. Estocadas se sucedem de lado a lado. Sangram no combate ferrenho, pois nenhum dos contendores admite "perder" a peleja. Enquanto isso, sangra mais ainda o Cristo crucificado, em uma terrível e excruciante permanência...

Não se admite transigir, porque transigir é perder. Contemporizar ou relevar é, para os "gladiadores", símbolo maior de covardia. É mister demandar e demandar; litigar e litigar; bater e bater. Os cristãos, agora transmudados em contendores, perdem-se em seus longos arrazoados, enraivecidos, irados. Já não é o Cristo, decididamente, que os induz à batalha, posto que o Salvador assim ensinou:

Mateus 5: 38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39 Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; 40 e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. 41 Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.

Esse calvinismo arrogante e soberbo, do "olho por olho e dente por dente" não é o que eu desejo praticar. Ainda que eu não consiga oferecer a outra face, buscarei sempre seguir os ensinamentos, tentando ser imitador do mestre. Não vislumbro qualquer benefício nas contendas, no linguajar agressivo, na hostilidade, na truculência, ainda que travestidos de uma aparência cristã. Não quero essa sabedoria! Lembrando Tiago, quero "estar pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para irar" (Tiago 1:19-20). Buscarei praticar a Palavra e não apenas ser um ouvinte não participante; vendo no "espelho", não o homem natural, mas o homem espiritual, resgatado e redimido (parafraseando o autor citado em epígrafe).

Não aceito o argumento falacioso da falsa humildade, que muitos calvinistas, meus pares, justificam para ativar as suas contendas, ataques, "estocadas" e inconfidências, alegando o pretexto da "exortação" ou "admoestação", uma vez que ambos devem ser acompanhados de serenidade e mansidão. Prefiro ser considerado tolo e estulto, a participar de tais contendas e dissensões , se assim for necessário para que seja considerado sábio. Aliás, pouco me importa a sabedoria deste século.

O Evangelho me ensina a calar para que não sobrevenham contendas, principalmente com os domésticos da fé. Certamente é preferível me humilhar agora, para que seja exaltado depois (Lucas 14:11).

Antes de ofender o irmão, não custa nada lembrar que "a resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira" (Provérbios 15:1).

Por fim, reconheço não ser fácil a caminhada cristã; estamos sempre meio trôpegos, nesse andar quase claudicante. Porém, façamos tudo para "não entristecermos o Espírito de Deus, no qual fomos selados para o dia da redenção, sem amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia" (Efésios 4:30-31).



Ps: Que fique bem claro que não estou a generalizar , incluindo todos os meus amigos calvinistas na querela, mas alguns. E refiro-me a um episódio específico envolvendo uma discussão ocorrida em um blog que acompanho, envolvendo irmãos que estimo. O que não impede a minha tristeza e admoestação, através deste post. Os demais irmãos calvinistas, verdadeiros amigos que frequentam este blog, não se sintam incluídos, por favor.

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Calma: conselheira dos sábios




Houve uma vez, há alguns anos, que participei de um julgamento pelo Tribunal do Juri, na qualidade de advogado de defesa. Terminado o julgamento, nem a minha tese e nem a do Ministério Público foram inteiramente vitoriosas, posto que, enquanto eu defendia a absolvição do acusado, o Promotor de Justiça lutava pelo seu libelo , pela condenação, por homicídio duplamente qualificado. Por que não houve vitória para qualquer dos lados? Porque houve condenação por excesso culposo. Essa figura jurídica, grosso modo, se caracteriza pelo uso excessivo da legítima defesa. Vale dizer que o sujeito está com a razão, mas usa de força desproporcional no intuito de se defender. É mais ou menos por aí.

A lembrança do fato jurídico me veio ainda hoje, ao ler um post muito bem escrito, refutando um outro. Acompanho o raciocínio do articulista, dou-lhe inteira razão quanto ao conteúdo e fundamentos do escrito, mas discordo do tom. Seria perfeito se o tom fosse menos belicoso. Reafirmo que a hostilidade gratuita, desnecessária, enfraquece os fundamentos do escrito, ainda que não possa ser considerado ofensivo.

Discordo dessa conversa tão em voga nos meios acadêmico-teológicos, especialmente usada por intelectuais belicosos, no sentido de que na argumentação tudo é permitido, desde que circunscrito a certos aspectos morais e éticos. Antes que me acusem de defender uma falsa camaradagem cristã, falsa humildade ou falsa piedade, quero me antecipar aos supostos detratores afirmando veementemente que não! Acredito que a verdade pode e deve conviver bem com a boa educação, com a civilidade e com o respeito ao próximo, especialmente com os domésticos da fé.

Começo a sentir "urticária" logo que vejo uma pretensa casta a se afirmar em tudo. Na superfície, eles defendem a completa liberdade de expressão e crítica, porém, os seus argumentos são sempre irrefutáveis... Como que se arrogam a donos da verdade, já que todo e qualquer argumento contrário tecido contra aquela postura é reputado como nada!

É, de tudo isso também me canso.

Confesso que sou avesso a grupelhos. Mesmo cristãos, quando se unem em "pacto de mútua proteção", tornam-se cansativos e pretensiosos.

Penso ser possível e salutar refutar o interlocutor com uma certa sobriedade, mais ainda quando se trata de um irmão cristão. A truculência, ainda que respaldada em argumentação bem elaborada , continua nociva ao desenvolvimento do diálogo. E não perde aquele caráter de truculência.

Obviamente que não defendo a hipocrisia disfarçada de amor cristão como obstáculo à defesa da Verdade escriturística. Isso é balela, falácia de fraudadores! Assim como também me posto diametralmente contra o endurecimento gratuito, a palavra desnecessariamente rigorosa, a dureza excessiva. O que se ganha com isso entre cristãos? Onde levará essa disputa?

Amedrontam-me os que citam as palavras de Jesus contra os fariseus para justificar o seu tom, qualquer que seja. Acho a postura no mínimo temerária. O contexto em que Jesus disse aquelas duras palavras (raça de víboras) pode não se aplicar ao exemplo citado, tampouco os autores se confundem...

O certo é que por vezes todos nós erramos, seja na argumentação ou no tom. A crítica é salutar, desde que postada nos limites do respeito e da civilidade - e do amor cristão, por que não?


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sábado, 27 de novembro de 2010

Sobre o meu desânimo...



Engolfado pelo desânimo eis-me aqui. Não que não tenha o que falar, pois eu tenho, e muito! O texto está definido em minha mente, as palavras são arquivadas, o raciocínio salva-se intacto. E ainda assim, perdura o desânimo, a me impedir de tornar as palavras factuais. A última fase, o colocar as palavras, a efetivação do raciocínio para ultimar o texto é que teima em não acontecer.

É um desânimo sem razão aparente, tal qual a languidez dos preguiçosos contumazes, mas sem rancor e sem dor. A tristeza não acompanha este meu desânimo, não há amargura a "maculá-lo". Posso afirmar que é um desânimo "limpo", quase inocente.

Pode até ser que eu esteja afetado por um conjunto de informações "subliminares", teimando em batucar no meu inconsciente sem que eu saiba, mas sentindo os efeitos colaterais desse registro oculto. Resultado dessa languidez, quase tristeza, pode até ser a observação quieta de mesquinharias que vejo aqui e acolá. Mesmices a se multiplicar nesse rico mundinho virtual; homens que se constroem e se desconstroem em instantes fugidios; personalidades que se aclaram, emergendo sem os disfarces cuidadosamente cultivados... Parece que este meu desânimo me confere a "oportunidade única" de ver as mazelas alheias, ao mesmo tempo em que penso sobre "a trave que recai sobre os meus olhos opacos...

Quantos sepulcros caiados recheados de ossos secos e pútridos! Quanta arrogância , quanto orgulho mal disfarçado! E o meu desânimo a crescer...

Sim, eu também tenho as minhas mazelas, a minha fatia de insensatez. Sou pleno na minha humanidade, mas deixo que os "outros" se preocupem em me (des) qualificar. Certamente que alegremente o fazem!

Como cristão sou pequeno. Na vida, não chego a ser expoente em nada. Mas houve tempo em que eu pensava ser... Melhor agora, que sei não ser. Porque não sendo, posso almejar ser...

Há pessoas que se sentem grandes, agigantadas pela sua própria pretensão; e este olhar torto de si mesmas fazem-nos ainda menores do que são. E eu vejo tudo isso. E o meu desânimo aumenta...

Todavia, sou um cristão, pequeno que seja, mas sou! E sendo, devo amar os meus semelhantes, mesmo os piores, ainda que sejam verdadeiramente grotescos. Sou bom? Sou nada! Que a minha afirmação anterior seja levada a sério! Não quero correr o risco de ser tachado de "bonzinho", ou de vender uma imagem falsa de mim mesmo.

Aqueles que me conhecem, sabem bem como sou: um emaranhado de qualidades e defeitos, assim como a maioria dos meus semelhantes, com exceção daqueles que se querem invulneráveis às misérias e mazelas próprias da humanidade falha, leviana e inconstante. Eu me canso desses tais... são pessoas que não admitem a crítica, por menor que seja. Quero me relacionar com os irmãos pequenos como eu mesmo sou. Eles não me intimidam. Mas, como eu, são também pecadores que encontraram o Redentor , creditando a ele, somente a ele, todo o mérito pela redenção em processo.

Nada tenho mesmo a dizer, caros (poucos) leitores , a não ser, declarar este meu desânimo. Porém, com a esperança imorredoura de que vou seguindo, às vezes firme, outras não; caindo e levantando, mas mantendo a esperança intacta de que Cristo vive em mim. E tudo que sou - mesmo este pouco - sou por intermédio dele.

Honra e glória ao Altíssimo!

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sai pra lá capiroto!




Nada melhor para trazer o bom humor de volta - e que me desculpem a redundância - do que ouvir boas histórias. Principalmente histórias de "crente".

Confesso que andava meio acabrunhado nos últimos dias, querendo escrever algo, sentindo falta disso, mas a inspiração e a vontade definitivamente não floresciam. As teclas do computador queimavam os meus dedos. Eis que então recebo um telefonema do meu querido irmão Tairone, um cristão respeitável, tradicional (no sentido de manter-se na suficiência das Escrituras), conservador até as "raízes dos cabelos". Porém, outras qualidades compõem o caráter do mano, e uma delas é o bom humor, a grande capacidade de narrar histórias, contar "causos" . As narrativas são permeadas de um riso alegre e incontido, com a força de levar o interlocutor às gargalhadas, o que acontece comigo praticamente todas as vezes em que falamos, tanto pessoalmente como por telefone.

Pois bem, da última vez não foi diferente. Telefone toca, Tairone na linha, cumprimentos iniciais, amenidades tantas e lá vem ele com a sua história:

-"Ricardo, você nem imagina o que me aconteceu, fui convidado a participar de um culto numa congregação por um grande amigo e lá fui ter com ele. E chegando lá..."

Farei uma pequena interrupção para explicar que o meu irmão detesta misticismos. É um cristão estudioso, inteligente, com raciocínio bem elaborado e, principalmente, racional, na medida em que consegue exercer um cristianismo focado na Palavra e sem qualquer necessidade de "outras vestimentas", emocionalismo, êxtase, etc.

A narrativa segue seu curso, enquanto eu, imaginando o que viria, já começava a me divertir:

- "...Chegando lá já vi logo uma senhora sentada à frente no pequeno templo com um baita véu branco cobrindo-lhe o rosto, e então perguntei ao meu dileto amigo: - que negócio é esse, aqui vocês usam véu, como na igreja Cristã no Brasil? E o pobre, quase tão assustado como eu diz: "sei disso não!"

Olha, confesso que nesse momento eu já estava me dobrando de rir no telefone, somente de imaginar a cara de desgosto, susto e descontentamento do meu irmão. Lembrei-me que quando passei pelo reteté na minha antiga igreja ele me acompanhou todo o tempo, aconselhando, contemporizando e sempre tentando dar uma dimensão menor aos fatos. Mas continuemos:

"... Não sabe disso como? Olha lá a mulher com o véu na cabeça! Imagino que o Tairone pensava lá com seus botões: a igreja é dele, o pastor também, como ele não sabe explicar o véu? Mas vá lá - continuou ele em sua narrativa - "sentamos - e a mulher começou a andar na frente de um lado pro outro... pensei, isso vai dar confusão, esse negócio não está certo. O pastor pregando com todo aquele sobrenatural neopentecostal e a dita mulher do véu andando de um lado pro outro à frente."

A narração segue, enquanto eu, entre risos do meu lado da linha ia prevendo os acontecimentos. Prosseguindo, diz o Tairone:

"...Vi que o pastor foi ficando incomodado. Enquanto isso, um grupo de pessoas ia tendo as suas mãos ungidas, por uma espécie de óleo - e eu ficando mais e mais cabreiro. Eram os tais intercessores. Os sujeitos começaram a andar nos corredores, pegando um aqui e outro ali, abraçando e colocando uma das mãos na testa dos coitados e simultaneamente grunhindo e cochichando no ouvido da vítima por longo tempo."

Confesso que nesse momento eu já começava a passar mal de tanto rir, somente ao imaginar a cara engraçada do Tairone, todo sério, olhando aquela patacoada (e estou rindo muito nesse momento ao escrever isto). Prossegue então ele com a narrativa:

"... quando aqueles caras foram se aproximando de mim eu vi que poderia ser também uma vítima; certamente eu seria, e só de pensar nisso meu estômago se revolvia, o mal estar foi tomando conta de mim. E eles se aproximando... De repente me levantei de um pulo e saí quase correndo do "recinto", sem nem mesmo esperar o meu colega".

Caros amigos, aí eu não consegui mais me segurar, ri até não poder mais, construindo toda aquela cena hilária na minha mente: o Tairone correndo em disparada, escapando de ser todo lambuzado de óleo, enquanto cá comigo eu o via olhando pra trás desesperado, gritando e pedindo socorro (era só o complemento que eu criara na mente no ápice da história) e os "intercessores" na sua "cola", gritando pra que ele parasse pra ser ungido.

Ao fugir do "terreiro" ele me disse que não resistiu a olhar lá de fora, escondido atrás de um carro, à continuidade daquele teatro de péssimo gosto. Até que o seu amigo voltou. Ao retornarem à segurança das suas casas o Tairone passou uma descompostura no camarada acrescentando peremptório: " - não me chame mais pra isso!!!"

Moral da história: Pra encontrar o capiroto, basta ir a uma "igreja" desconhecida na companhia de um "crente" místico.

Ps: Querem saber de uma coisa? Foi muito bom, pois a história me fez rir muito, mudando completamente o meu humor (mas foi bom para o Tairone aprender que eu não exagerava quando lhe relatava as desventuras que passava na minha antiga igreja). Hehehe.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A humanidade em Cristo




O cristianismo nos faz refletir diariamente, estamos constantemente a descobrir "novidades" que emergem da Bíblia. Convivemos muitas vezes a vida inteira com certas afirmações bíblico-doutrinárias sem, contudo, nos aprofundarmos no entendimento das questões. Como que aceitamos o fato óbvio pela fé.

Já não é de hoje que tenho pensado seriamente sobre a humanidade de Cristo. Eu diria que esse "mergulho" se intensificou mais ainda a partir do momento em que sucumbi maravilhosamente às doutrinas da graça, tornando-me um reformado convicto, um calvinista imune a toda e qualquer manifestação ou experiência que não seja bíblica, ainda que "espetaculosa".

Dito isto, e ainda não envolvendo especificamente a pessoa do Cristo, a indagação que deve ser feita é: "O que define a minha humanidade"? O que me torna um homem, um ser humano? Por um determinado aspecto a resposta poderia ser objetivamente sumária: o intelecto, a capacidade de poder reconhecer a minha própria existência, o raciocínio lógico. Porém, eu diria que o que define a minha e a sua humanidade é algo mais. Sou um homem, ao invés de um deus, ou de uma entidade sobrenatural porque tenho um corpo. Portanto, o corpo físico me define como homem e me diferencia de um deus, ou de uma entidade sobrenatural, metafísica, imaterial. Portanto, a corporeidade é uma marca que nos define e nos diferencia dos espíritos puros.

Sou um homem porque tenho uma estrutura física palpável, ocupo espaço, posso ser sentido através do tato e dos demais sentidos. Tenho músculos e tendões; a minha carne sangra; eu me alimento para nutrir e manter este corpo físico.

Cristo, pelas informações que temos na Bíblia - e isso é inconteste - também possuía todas essas características que eu e você possuímos. Logo, pelo aspecto puramente biológico e natural, o Cristo encarnado era inteiramente humano. Não há indício ou evidência mais tênue que lhe tire essa qualidade.

Fui levado à presente reflexão ao ler um post no blog do Pastor Geremias do couto , da sua pena, que exatamente fazia algumas considerações sobre o assunto. E as referidas considerações são muito pertinentes, posso afiançar.

Voltando ao Cristo homem, pelo aspecto biológico não resta a mínima dúvida de que o Salvador encarnado possuía um corpo físico tal como o nosso. Pelo aspecto religioso, metafísico, guiados e orientados pela fé (Hebreus 11), temos a certeza indubitável de que aquele que nasceu da virgem e que foi precedido por João Batista também é Deus. A minha certeza se consubstancia na fé, a mim revelada pelas Escrituras. Cristo foi anunciado ainda em remotas épocas (Salmo 22; Isaías 53), e tal como descrito dez séculos antes do seu nascimento, o seu infortúnio e a sua morte vicária ocorreu com riquezas de detalhes. Portanto, aquele que se encarnou no tempo, morreu crucificado pelos pecados de muitos , gozava de duas naturezas em uma unidade.

Posso afirmar categoricamente que aquele que veio, nascido de mulher, chamado Jesus Cristo, era(é) homem e Deus. Igualmente posso afirmar que as duas naturezas eram e são completas no mesmo ser, pois Deus nada faz incompleto. Outrossim, refutar a certeza bíblica da inteira humanidade e deidade de Cristo é andar perigosamente à beira do abismo doutrinário, flertando com a heresia. Muitos tentaram e foram vigorosamente combatidos, como os arianos, monarquianistas e tantos outros, tendo as suas tentativas frustradas pelos Concílios que sobrevieram (Nicéia e Constantinopla).

Diante do que foi revelado nas Escrituras Jesus Cristo procede de Deus-Pai, sendo a segunda pessoa da Trindade; é eternamente gerado, partilha a mesma substância com Ele (essência), não sendo a Ele subordinado em essência, porém, sofrendo subordinação em relação à função (Deus-Pai e Deus-Filho), especialmente no que se refere ao plano de redenção gestado na eternidade e executado no tempo pelas três pessoas da Trindade: Deus-Pai, Filho e Espírito Santo.

Pelo que foi exposto reafirmo peremptoriamente que Jesus Cristo é eternamente homem e Deus a partir da sua encarnação, com as duas naturezas completas, a despeito de qualquer jogo semântico que se queira fazer com o intuito de inovar a questão.

A ele honra, glória e exaltação!


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