domingo, 1 de agosto de 2010

Soberano Oleiro




"Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3.23-24)

O homem certamente foi engolfado pelo pecado a partir da queda. O pecado passou a ser uma marca indelével no seu caráter quando o homem deixou de gozar do beneplácito divino, após a queda do casal primevo, narrada no capítulo terceiro do livro de gênesis.

Tão logo foi cometido o pecado, com a queda propriamente dita, Deus passou a olhar a sua criação com olhos críticos. O pecado teve a força de subverter tudo, tornando disforme e depravada não somente a imagem do homem (feito à imagem e semelhança de Deus), como toda a criação, a totalidade do universo criado. Como que fora disseminada uma sombra, uma cortina escura sobre o universo, absorvendo dele todas "as cores", toda a pujança de outrora. É de se imaginar que o Criador passou a ver o que criara, inicialmente tão bom e belo, com uma sombra a deformar tudo.

O homem não mais conseguia buscar a Deus; o seu Senhor e Criador ficou separado das suas criaturas, uma vez que, sendo santo e justíssimo, não poderia misturar-se a seres pecaminosos e impuros. O pecado, pois, infligiu ao homem a solidão de Deus. Não havia mais como buscá-Lo (Salmos 14.1-3, 51.5-6; Romanos 3.10-12), pois a justiça do homem transformara-se em "trapos de imundície" (Isaías 64.6).

Pelo pecado de um só homem, toda a humanidade pecou e tornou-se carecedora de Deus (Romanos 5.12). Não há obra humana capaz de novamente religar o homem a Deus, a não ser o próprio Deus. Toda a humanidade padece o seu próprio mal; o planeta e o universo gemem pela distância do Criador, pela sua ausência. Os "mortos" continuam nas suas atividades normais, o tempo flui o seu lapso contínuo, mas o homem - morto em seus delitos e pecados - cada vez mais se aprofunda no erro. Não há quem busque a Deus, não há um sequer.

É preciso que o pecado se desvaneça para que o homem, o universo inteiro, possa voltar a Deus. O que fazer, se o próprio homem, vestido de uma natureza completamente pecaminosa não se vê em condição de buscar o Criador? Como religar o que foi rompido? Como restabelecer a antiga imagem e semelhança de Deus ao homem sem a deformação imposta pelo pecado e pelo mal?

Ora, se ao homem é impossível a tarefa de novamente estar em relacionamento com o seu Criador, cabe somente ao próprio Deus, segundo a sua vontade e desígnio eternos, trazer o homem para Ele (João 15.16).

Aprouve então a Deus dar o seu unigênito filho (Joaõ 3.16) para resgatar essa humanidade perdida, trazendo para si todos aqueles que creem, pelo Seu exclusivo amor. Ato unilateral de vontade! E assim, pela obediência de um só homem (Cristo), muitos foram justificados (Romanos 5.19).

Há os que dizem que, a despeito da queda o homem ainda pode buscar a Deus, através de uma força chamada livre arbítrio. As Escrituras dizem que não, uma vez que a depravação foi total: não há quem busque a Deus, pois todos pecaram e carecem de sua glória - através do pecado de um só homem.

Fé. Somente a fé pode novamente religar o homem ao Seu Criador. Não podemos tê-la por nossas próprias forças. Temos um caráter depravado. Não auxiliamos Deus nesse mister. Como tê-la então? Uns dizem que é possível ter fé, a despeito do pecado original, muito embora a Palavra diga que não. Argumentam que a fé produz a regeneração, e que esta fé é fruto de um certo livre arbítrio. Assim, segundo eles, o buscar a Deus é dom do próprio homem. Todavia, a Palavra de Deus diz o contrário:

"Ninguém pode vir a mim se o pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia" (João 6.44);

"Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum lançarei fora" (João 6.37);

"E prosseguiu: por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim se, pelo Pai, não lhe for concedido" (João 6.65).

Em outras palavras, o evangelista está dizendo que o homem não pode buscar a Deus. E, buscar a Deus, nesse contexto bíblico, é ter fé! Ou seja, Deus nos concede a fé para que possamos buscá-Lo, uma vez que o homem não pode fazê-lo por si mesmo. O contexto bíblico é claro, remansoso, cristalino, irrefutável. Logo, a regeneração precede a fé e esta vem pelo ouvir a Palavra. E essa fé, não vindo do homem, é dom gratuito de Deus (Efésios 2.8-9). A fé, pois, é presente, dádiva de Deus.

O homem coopera com Deus de alguma forma no caminho a percorrer para ter fé? Segundo o que diz a Bíblia (sic) não. Homens mortos em seus delitos e pecados não têm como buscar a Deus, tampouco cooperar com Ele em qualquer coisa. E eis que, por isso mesmo, "Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2.13).

Finalmente, como Deus opera esse querer e realizar em nós, homens mortos em nossos delitos e pecados? Devemos buscar a resposta na própria Bíblia, então vejamos:

"Assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça" (Efésios 1.4-7);

"Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Efésios 1.11);

"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados" (Efésios 2.1

Erram aqueles que dizem, a despeito da própria Bíblia, que fazemos a escolha (fé) através de um certo livre arbítrio, completamente contrário à lógica escriturística colacionada em epígrafe. Ele nos escolheu antes que nós o escolhêssemos (João 15.16), valendo dizer que apenas O escolhemos depois que Ele nos escolhe. E como é feita essa escolha? Por ato exclusivo da vontade do Criador (eleição), através de critérios tais que somente Ele tem conhecimento:

"Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou" (Romanos 8.29-30).

E de quem é a fé? Porventura é de todos? Não, mas somente daqueles que foram escolhidos por Deus na eternidade (2 Tessalonissenses 3.2; Tito 1.1).

Deus é injusto por eleger alguns e reprovar outros? Não, pois Ele, sendo Deus, tem misericórdia e compaixão de quem quer ter (Romanos 9.14-15). E então, por acaso, depende de quem corre (livre arbítrio)? Não, mas de usar Deus a sua misericórdia (Romanos 9.16).

Deus é o Oleiro, nós somos apenas barro. E o Oleiro faz do barro o que lhe apetece. Faz vasos agradáveis e vasos desagradáveis, exatamente a fim de que sejam diferenciados os bons dos maus, para a Honra da sua glória.



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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Hipocrisia 'santa'



Estava aqui a pensar sobre tantas coisas que me aconteceram nos últimos tempos quando, novamente, fui transportado àquele tempo em que vivia a combater as estripulias gospel na igreja onde congregava. O arrepio percorreu da espinha ao dedão do pé somente com a horrenda lembrança, hei de confessar.

E não é que dia desses alguém novamente veio me dizer que certa pessoa , dentre as tantas que conheço, continua a praticar das suas! E então começou a discorrer sobre o fato. Sabem como é, embora detestando a coisa, a curiosidade nos faz prestar atenção à narrativa, quando o melhor seria não ouvi-la.

Disse-me o narrador que um dos praticantes do misticismo daquela 'grei', reunindo-se a um grupo de jovens novos convertidos e ainda bastante imaturos na fé, 'carreou-os' até um certo monte para que se sentissem mais próximos de 'deus'. E lá chegando, vendo uma das jovenzinhas triste e sorumbática, certamente por algo que lhe acontecera ao longo do dia, começou, 'in continenti', a lhe ministrar , pondo-lhe as mãos sobre a cabeça e murmurando a cantilena de sempre, tão peculiar no meio. Ato contínuo, sentenciou que a pobre jovenzinha estava acometida de espíritos maus.

Senti o mesmo descontentamento e tristeza de outrora ao ouvir a triste história. Temi pela fé da garota, bombardeada por tantas heresias e enganos. Ao mesmo tempo, dei graças a Deus por me guiar cada vez mais longe dessas práticas horrorosas e nefastas.

Cada dia mais me convenço que o evangelicalismo de agora está mesmo deturpado em sua grande maioria, salvo raras exceções. O sincretismo tem avançado pelas fileiras evangélicas cada vez mais ostensivamente, sem disfarces, sutilezas.

Evangélicos se transformam em espíritas, dando vazão ao sincretismo, em busca de uma suposta comunhão transcendente com um suposto deus. Buscam experiências mais e mais esdrúxulas, sem se dar conta que ao final do caminho nada encontrarão de bom ou edificante.

E então me recordo das palavras de Cristo: "Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade". (Mateus 7. 22-23)

Continuam com a mesma necessidade de exaltação, pavoneando-se da sua "grande espiritualidade", seja orando em alta voz na igreja ou nos montes, ou "clamando" aos gritos de aleluia para serem ouvidos, evocando uma certa aura de intocável santidade. Homens com a necessidade do aplauso (clap, clap, clap), ansiosos pela admiração dos seus pares. Por todos os poros transpiram a "unção" que lhes foi transmitida pelo seu "deus".

Sobre pessoas iguais a essas, Cristo já asseverara há quase dois mil anos: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens" (Mateus 15.8-9)

Com a mesma tristeza com que iniciei este post, me vem à memória outras palavras de Jesus, quando, por esta terra de dores passou: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, , porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito ; e, uma vez feito, o tornais filhos do inferno duas vezes mais do que vós" (Mateus 23.14). "Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens , mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniquidade." (Mateus 23.27-28).

Não posso dizer que me apiedo desses tais, pois eles conhecem a verdade, mas são cegados pelo poder que a 'autoridade' lhes traz, pela busca do aplauso, pelo orgulho travestido de falsa piedade.

Que Deus, na sua infinita misericórdia, lhes abra os olhos.


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quarta-feira, 14 de julho de 2010

O verdadeiro conhecimento




Não faz muito tempo brotou uma discussão entre amigos sobre a epistemologia reformada - e confesso que foi muito acalorada - finalizando em consenso: "não há conhecimento verdadeiro fora da revelação".

O conhecimento filosófico secular responde a alguns questionamentos, mas sempre irá desaguar em um beco sem saída, a respeito, especialmente, do sentido da vida. E a pergunta sem resposta é aquela de sempre: de onde viemos e para onde vamos?

Somente o cristianismo com a revelação nos dá a resposta completa, o conhecimento absoluto, metafísico, ontológico e teleológico. Deus é a origem de tudo, é a inteligência por trás de toda a criação; é o referencial supremo, o padrão maior do que "é bom". Diante de tal grandeza não podemos traçar comparações com "o Ser", porque Ele está acima do padrão humano. Por estar ontológica e metafisicamente em um patamar de completa superioridade em relação à criação, Deus não pode ser confrontado pelas suas criaturas. O maior erro que alguns cometem é dizer que "não concordam com esse Deus tirano". Outros ainda asseveram peremptoriamente: não quero esse Deus déspota!

Portanto, voltando ao início, reafirmo hoje, como na discussão de ontem, que não há mesmo autonomia intelectual dos não regenerados, restando certo que o conhecimento secular, ainda que respaldado em fortes bases filosóficas não responde a todas as indagações, mantendo na escuridão os "sábios".

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (I Co 2:14).

Eis que agora lendo "A Soberania Banida", de R. K. Mc Gregor Wright, me deparei com argumentos idênticos àqueles que usamos, quando discutimos longamente sobre o verdadeiro conhecimento, forçosamente atrelado à revelação salvífica. E o mais interessante é que há um texto de Cornelius Van til respondendo a Clark Pinnock, pinçado da obra "Jerusalem and Athens" escrita por vários autores em homenagem a Van til, que vale a pena transcrever:

"Eu concordo com você que a Escritura deveria falar por si mesma. De fato, eu quero que ela nos diga o que Deus é, o que o mundo é, e o que somos como humanos, não após, mas antes de começarmos a falar de metafísica, epistemologia e ética. Pensar que eu "concebo" a fé cristã como sendo um "sistema metafísico abstrato apoiado pelo pressuposicionalismo" é confundir completamente a arremetida total do pensamento reformado. Eu observo, ao contrário, que como cristãos, devemos olhar para o mundo como o próprio Cristo o fez, e se alguém não o olhar assim ele o vê de modo falso. Consequentemente, a tentativa de encontrar Deus no mundo sem olhar através dos olhos de Cristo é inútil, não porqueo mundo não revele Deus (ele continuamente clama em voz alta sobre a existência de Deus aos homens) mas porque os homens precisam de novos olhos! " (p. 426, itálicos meus). [1]

A lembrança me veio à memória exatamente porque naquela oportunidade em que empreendemos a discussão, um dos irmãos levantou a posição de Van Til, o que me motivou ao texto de agora.


[1] R. K. Mc Gregor Wright, "A Soberania Banida" - Redenção para a cultura pós-moderna, Editora Cultura Cristã, tradução Heber Carlos de Campos, 1ª edição, 1998, p. 224.



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terça-feira, 6 de julho de 2010

Exaltação e certeza


Ainda que o meu caminho se torne em pedras pontiagudas,

que os meus pés descalços se firam,
Ainda que a noite ganhe a minha trilha,
e a escuridão se torne densa e angustiante,

Tu me guardarás!

Ainda que os meus inimigos se juntem todos contra mim,
e os amigos me abandonem,
Ainda que todas as evidências indiquem a minha derrota,
e nada mais me reste na terra,

O Senhor me sustentará!

Ainda que a aflição seja tão grande a ponto de me afogar,
qual nau à deriva em mar bravio,
Ainda que as ondas me ameacem tragar,
e as incertezas tomarem meu ser,

Tu serás o meu refúgio!

Ainda que a fé estremeça,
que o amor pereça,
que a vida sucumba,

O Senhor estará comigo, a me guardar, sustentar e refugiar!

Honra, glória e exaltação ao Eterno e Grandioso Deus!


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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quem Caim encontrou na terra de Node?



Recebi por email uma indagação do meu amado irmão Tairone Mamedes (irmão duas vezes), que faço questão de tentar responder, ou, pelo menos, desenvolver um raciocínio. Vamos a ela:

Olá, mano véio...

Eu gostaria de ter sua opinião (com fundamento bíblico), acerca de um ponto: Com quem teria se casado Caim? com quem teria se casado Sete (o terceiro filho de Adão)? É certo que não havia outras "famílias" espalhadas por aí, que não a de Adão e Eva... A bíblia afirma que foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos, e gerou filhos e filhas (Gênesis 5: 4). Portanto, é sabido que Adão gerou filhos e filhas, além de Caim, Abel e Sete. Teriam eles se casado com suas irmãs? você, estudioso que é, já se atentou pra isso? Aguardo seu posicionamento, via e-mail, ou no seu blog, que leio sistematicamente.

Abração do mano TAIRONE.

Reconheço que em uma época, há algum tempo, eu me fazia essa mesma pergunta, tentando uma resposta que me satisfizesse, mas apenas no campo das conjecturas. Tendemos a construir castelos em nossas mentes, mesmo com as verdades bíblicas, principalmente quando há lacunas no texto. E tais lacunas, tenho certeza, existem porque "Deus quis que assim fosse".

A interpretação bíblica tem como exigência lógico-exegética que nos mantenhamos dentro do próprio texto, evitando, pois, as fugas, os achismos, conjecturas e elucubrações. Nesse diapasão, vejamos o que diz o texto e o seu contexto lógico. Ou melhor, vejamos, inicialmente, o que o texto não diz:

1. o texto não diz que Caim "encontrou a sua esposa na terra de Node, ao leste do Éden, mas que a "conheceu" lá;

2. "Conhecer", no contexto bíblico, tem a ver especificamente com "coabitar", manter relações sexuais;

3. Portanto, o texto não diz implícita ou explicitamente que Caim encontrou uma civilização na terra de Node, ou pessoas, ou grupos.

Mantendo-nos estritamente no campo da hermenêutica e cuidando para não resvalarmos para os "achismos", podemos imaginar algumas possibilidades que não venham, obviamente, a obliterar o texto bíblico, tampouco subvertê-lo.

Há duas possíveis linhas de pensamento: Caim poderia ter levado uma de suas irmãs consigo, posto que tanto o texto como o contexto escriturísticos não eliminam a possibilidade de isto ter ocorrido. Por outro lado, não há como determinar o lapso de tempo entre a morte de Abel, a culpabilização de Caim por Deus e a sua eliminação do seio da família (fuga), o que possibilita perfeitamente que, quando da consumação da fuga o casal primevo poderia já ter gerado muitos outros filhos e filhas. A segunda possibilidade é que, entre a fuga e a chegada à terra de Node, pode ter decorrido um longo tempo, mesmo gerações, tendo em vista a longevidade daqueles povos (Adão viveu mais de oitocentos anos). A segunda linha, subproduto da primeira, leva em conta exatamente esse longo período decorrido entre a fuga de Caim e a sua chegada à terra de Node "onde 'conheceu' a sua mulher , tendo ela concebido.

Com efeito, se esse lapso temporal foi longo - o que é perfeitamente plausível - novas gerações provenientes da semente de Adão e Eva podem ter sido formadas, habitando todas aquelas terras, povoando os arredores e promovendo ajuntamentos de pessoas. E, ali chegando Caim, escolheu uma das mulheres , com a sua mesma herança genética, para coabitar com ela. Esse raciocínio não encontra qualquer óbice escriturístico. E digo mais, tem até respaldo científico, uma vez que as ciências naturais reconhecem que todas as pessoas provém de um "tronco comum".

O que não é possível conceber , como querem os liberais e até mesmo uma facção "cristã", é que o texto em referência (genesis/criação/ Adão e Eva) seja apenas uma "alegoria", não significando que efetivamente toda a criação tenha se originado do casal primeiro, mas, ao contrário, de um 'único indivíduo". Eis , pois, segundo essa teoria, que o substantivo "Adão" , longe de se caracterizar como nome próprio, figuraria na verdade, entre os diversos termos para designar o gênero humano. Esta é uma falácia extra-bíblica que sequer vale a pena refutar pelos motivos em epígrafe citados e que ofendem a boa hermenêutica.

Veja que tanto uma como outra, das duas opções expostas acima, são absolutamente plausíveis, especialmente se considerarmos a longevidade dos descendentes de Adão, que foram citados na Bíblia (uma vez que somente alguns constaram no texto bíblico): Set chegou a 912 anos, Enos a 905, Cainã a 910 e Matusalem aos 969 (Gênesis 5:8 - 27). Todos eles tiveram filhos em idades avançadas: Enos aos 90, Cainã aos 70, Malalael aos 65, Matusalem aos 187. Noé, por seu turno, gerou seu primogênito aos 500 anos de idade(Gênesis 5:32), não sendo superado por ninguém (pelo menos daqueles citados na Bíblia).

Portanto, espero ter respondido à sua indagação, mas reconheço que a certeza é impossível. A única certeza, pelo menos para mim, é que uma das duas opções é a verdadeira, partindo do princípio que a Bíblia não mente, tampouco as suas verdades podem ser consideradas "alegorias".

Grande abraço, querido irmão!


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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Prometo...




Hoje é dia 24 de junho de 2010. Esta data me faz recordar outra data: 24 de junho de 1995. O dia me remete a um grande e profundo sentimento de alegria incontida... A história das nossas vidas é pontuada por datas, os momentos são gravados e "salvos" no HD da nossa memória.

Quinze anos se passaram e tranquilamente eu poderia demarcar a minha existência entre antes e depois. Até 24 de junho de 1995, havia um Ricardo buscando se encontrar nos prazeres passageiros, na realização fugaz dos sentidos, nas experiências transitórias da vida jovem. E permeando tudo isso, um profissional em início de carreira tentando se fazer conhecido nos meios forenses, na região de atuação.

Ainda não havia qualquer cicatriz na alma, nada que fizesse rememorar um passado a ser lembrado. Faculdade terminada, pequenos aprendizados, adaptação à vida verdadeiramente adulta. E mais nada...

Porém, em 24 de junho de 1995, começa uma história nova, agora a dois. Eu e a minha namorada/noiva resolvemos nos fazer marido e mulher. Aquela garotinha que eu havia conhecido há quase cinco anos, menina-moça de apenas 16 anos, agora uma mulher, deu-me o ultimato: ou casa ou desocupa (rsrsrsrs)!

Não havia outro jeito, coração fisgado, mentes unidas, risos simultâneos, éramos já um quase complemento de nós mesmos. O "eu" já passara a ser "nós", e mudado o pronome não há mais como transigir. Desistir de ir em frente seria como mutilar a alma... melhor casar e continuar inteiro, completo.

E era um grande negócio, afirmo categoricamente. Minha alma gêmea era uma linda loiraça de 1.70, cabelos esvoaçantes, e tantos outros predicados que somente a mim interessam. Além dessas virtudes visíveis, outras tantas eram-lhe peculiares, como um caráter sólido, personalidade firme e valores familiares valiosos.

Casamos há exatamente 15 anos. Hoje é nosso aniversário de casamento. Uma vida dividida, praticamente 20 anos de convívio entre namoro e casamento. Afinidades , percepções de mundo extremamente semelhantes; a mesma apreensão do Divino. Tornamo-nos então parceiros incondicionais. Momentos de rusga, brigas, descontentamentos? Muitos. Crises? Muitas outras. Amor? Sempre.

Caminhamos até aqui de mãos dadas. Juntos e cúmplices, a despeito das "intempéries".

Hoje a nossa relação é muito mais sólida, adulta, não somente porque temos duas filhas maravilhosas (Sarah e Isadora) que vieram de nós, presenteadas pelo Eterno, mas também porque o tempo, tal qual faz com o vinho, tornou mais precioso o sentimento que nos une. Eu diria que ficou bem mais "saboroso".

E há um fato especial nessa nossa história: eu conheci Deus de uma forma que antes não houvera conhecido. Conheci o Deus da graça, e esse Deus me completou, fazendo de mim um novo homem. Antes "conhecia" Deus, mas lutava para alcançá-lo, para merecê-lo, qual um navegante em "mares nunca dantes navegados": mar de incertezas. Esse conhecimento se transportou para o meu casamento, fazendo com que o amor de ontem, ainda trôpego, claudicante, se transformasse na rocha sólida de hoje, alicerçado na outra Rocha que é Cristo Jesus, o nosso Salvador.

Por isso, hoje é um dia especial em todos os sentidos, pois há 15 anos eu me casei com a Luciana, minha eterna companheira, minha musa, meu amor. Sem medo de ser piegas e talvez até sendo (quem liga?) eu repito: você é o grande amor da minha vida.

Que Deus nos mantenha unidos para sempre, sob os Seus cuidados e a Sua proteção. E que "não seja apenas eterno enquanto dure". Mas que seja eterno além do tempo, "posto que é chama... mas chama inextinguível".

Ps: Posso afirmar que a loira de hoje é ainda mais bela que aquela de ontem.



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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Recomeço


Há um aforismo bem conhecido segundo o qual "depois da tempestade vem a bonança". De fato, sempre depois das lutas e até ao longo delas, Deus guarda os seus, apascentando o rebanho e mantendo-o sob a sua santa proteção (João 6:37,39).


Não é segredo que passei por lutas, juntamente com a minha família, ao combater práticas estranhas que assolaram a igreja onde congregávamos. Práticas advindas do neopentecostalismo: triunfalismo, misticismo, falsa espiritualidade, exibicionismo, tudo "firmado" em outro evangelho, absolutamente contradizente com o Evangelho Bíblico. Todavia, não quero me estender mais neste triste assunto. É passado. Aliás, neste post, quero falar do presente e do futuro!

Em um momento de tristeza e impotência , quase sucumbindo ao desespero e à dor; completamente amargurados, saímos da comunidade onde congregávamos. Era "nossa", porque havia uma longa história de amor por aqueles irmãos e aquela denominação, conforme já demonstrei aqui neste blog outrora (o amor ainda continua pelos irmãos). Porém, fomos forçados a deixá-los, em razão dos desvios que se instalaram naquela igreja por uma liderança sedenta de crescimento e firmada em "experiências místicas".


Buscamos então nos manter firmes, vendo a necessidade de congregar em outro local porque cremos na necessidade de ter comunhão com irmãos, mas onde a Palavra de Deus seja pregada de conformidade com o que está exposto na Bíblia: sem desvios doutrinários, Evangelho simples de Cristo - e Ele crucificado.

Fomos recebidos pelos irmãos da Igreja Presbiteriana do Brasil, sob a liderança do Reverendo Abceil Luiz da Silva Filho. Quanto carinho nos foi demonstrado! Sentimo-nos "abraçados" sem desconfiança por irmãos firmes na fé, sem jamais condicionar a nossa presença em seu meio a explicações cansativas e desgastantes e a justificativas de qualquer gênero. Trataram-nos como irmãos , como iguais. Enxergaram que precisávamos de acolhimento, carinho, amor cristão.

Eis que a dor, a tristeza e amargura foram transformados em transbordante alegria. A cada culto éramos mais e mais "abraçados" por aqueles irmãos. Nada mais havia, se não o contentamento de servir a Deus junto a irmãos sóbrios, participando de um culto racional e firmado exclusivamente na Palavra de Deus, sem buscar a "nova revelação", ou o "agir tremendo"; sem transes, gritarias, unções, cai-cai. Somente a prática do Evangelho de Cristo - este, o único que transforma e vivifica.

Em dois meses de constante participação nos cultos, aprouve a Deus tocar os nossos corações de uma forma calma mas indizível, levando-nos a solicitar a adesão como membros comungantes à Igreja Presbiteriana do Brasil, sob a liderança do Reverendo Abceil Luiz da Silva Filho.

Foi ontem o grande dia! Apenas dois meses nos levaram da tristeza ao mais transbordante contentamento.

O salmista não mentiu ao afirmar que "O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã" (Salmos 30:5).

Creio que era necessário passar por tudo que passamos, que experimentássemos o que experimentamos, para que, no futuro, tenhamos uma fé imorredoura, exclusivamente firmada na Rocha eterna. O Apóstolo Paulo afirma que "Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28). E eu creio nisso. Sim, o Eterno usa a providência para nos forjar e nos preparar para a vida futura, quando não mais haverá dor e nem sofrimento.

Destarte, necessário salientar que não remanesce qualquer amargura, mágoa ou ressentimento com a antiga denominação e seus líderes. Oramos para que Deus os reconduza à sã doutrina.

Aos irmãos da Igreja Presbiteriana de Araputanga, presbíteros e diáconos, e ao Pastor Abceil Luiz da Silva Filho, o nosso agradecimento. Que Deus os abençoe rica e abundantemente!

Tudo para honra e glória de Deus!


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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago: "post mortem"




Morre José Saramago. Chegou ao fim a saga do escritor lusitano em sua "cruzada" ateia contra Deus. Ao que tudo indica, a morte se deu calmamente em sua residência nas Ilhas Canárias, aos 87 anos de idade.

Há algum tempo, mais especificamente no dia 22 de outubro de 2009, escrevi um post neste mesmo blog comentando sobre o lançamento da sua última obra,"Caim", em que mais uma vez o escritor faz apologia ao ateismo colocando em dúvida não somente a existência de Deus, como também, elevando Caim, o irmão homicida, à condição de herói. Seja nessa obra, ou na sua mais famosa, "O evangelho segundo Jesus Cristo", Saramago sempre usou de uma ironia ferina , um sarcasmo ácido contra a fé cristã.

Lembro-me que no post acima citado, terminei com uma frase: "uma coisa é certa, o "acerto" de José Saramago com Deus ainda não é definitivo".

Embora sabendo que se tratava de um homem incrédulo, um ímpio que levou a vida a imprecar contra Deus, ainda assim sinto uma tremenda pena do grande escritor. Qual não terá sido a surpresa ao descobrir que a sua luta era completamente sem sentido. E, em um momento de solidão, medo e desespero, todas as certezas nutridas nesta vida se tornam em nada, e eis que surge Deus em toda a sua glória para julgar o homem.

Tudo isso prova a grande longanimidade de Deus com os vasos de ira. A vida humana, já disse o salmista, é apenas um sopro. E Deus tira o sopro de vida quando lhe convém.

José Saramago travava uma luta contra a morte, demonstrando medo, incerteza do que viria após a cessação da vida, mesmo afirmando a não-existência de Deus. O mesmo terror, o mesmo desespero que sempre acometeu os existencialistas com a sua eterna incerteza a respeito do Criador.

No entanto, aquele que crê verdadeiramente em Cristo tem a vida eterna, o que não crê, porém, "já está condenado".

Ao fim deste curto texto quero finalizar com uma frase, diferente daquela com a qual finalizei o outro post: "uma coisa é certa, o acerto de José Saramago com Deus agora é definitivo".

Bendito seja o nome do SENHOR em toda a sua glória.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Cheung, Agostinho e o poeta intruso (I)


Venho acompanhando com grande interesse e uma certa "apreensão" a uma discussão "encarniçada" envolvendo, de um lado, uma crítica feita a Cheung (Vincent Cheung, teólogo) por um "admirador" e, por outro lado, a sua defesa, também feita por admiradores. Não sei porque cargas d'água a altercação entre os irmãos , todos meus amigos, fez-me lembrar daqueles conhecidos versos do Fernando Pessoa:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Sei lá por quê, mas me fez lembrar... Talvez seja porque todos, no fundo, gostam do Cheung, mas uns fingem não gostar, enquanto outros gostam e o defendem intransigentemente.

Ou talvez, um gosta, finge não gostar e critica, porque outros gostam e somente ele pode gostar; mas como ele gosta, então diz não gostar, porque quer gostar sozinho. Que confusão!!!! O que me fez lembrar outros versos do mesmo poeta:

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

E no meio dessa tremenda "confusão" entra Agostinho para entornar todo o caldo! O bispo de Hipona dá um tremendo direto em Cheung quase o levando à lona por knock down. Porém, Cheung se levanta trôpego e combalido e revida com golpe certeiro.

Ainda estamos no segundo round, vamos ver o que o futuro nos reserva em fortes emoções!

Afinal, quem é de Cheung e quem é de Agostinho (rsrsrs)?

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Evolução, teísmo e ateísmo: síntese do pensamento de Francis S. Collins ("A linguagem de Deus") - Parte II



No primeiro post falei sobre um universo que "clama" por um Deus, que "grita" a existência do seu Autor. Toda esta criação proclama o seu Arquiteto. A própria ciência, ainda quando cética com relação ao sobrenatural, com os seus cientistas ateus e agnósticos, não responde às indagações sobre o início de tudo. Há um vácuo quando o homem chega à origem do universo... A centelha da criação reclama a existência de uma vontade, uma inteligência por trás de tudo. O que vem por trás do átomo, do fóton, do bóson de Higgs?

Há um quase preconceito por parte da maioria dos crentes, como se jamais pudéssemos ousar trilhar o caminho da ciência, ou pelo menos do entendimento acerca do mundo natural. A confusão entre o santo e o profano impede que se compreendam os mistérios da criação. Até onde podemos chegar? As leis naturais, os fenômenos, são tabus para aqueles que creem no Invisível? Há, porventura, incompatibilidade entre saber e crer?

O autor deste livro trilha o caminho da ciência e expõe as teorias aceitas sobre evolucionismo exclusivamente à luz do naturalismo; as suas possibilidades e impossibilidades; os vácuos, as certezas. No mesmo "pacote" nos induz a considerarmos outras possibilidades, como o 'design inteligente' e a 'evolução teísta' - esta , a que mais lhe agrada sob o ponto de vista científico e teológico.

Portanto, caros amigos e irmãos, tentarei, na medida do possível , sintetizar o pensamento do autor condensando-o no menor espaço possível e, ao mesmo tempo, convidando-os a uma análise racional dos fatos à sombra do Inexaurível e guardados pela fé.

Evolução sob a ótica exclusivamente naturalista: origem da vida - É a teoria que exclui Deus da criação; o universo é autoexistente; de alguma forma incompreensível ele se fez de uma partícula de energia, gerando uma explosão conhecida por big bang. Calcula-se que esse universo tenha a idade de 14 bilhões de anos pelo critério científico de datação aceito: radioatividade, degradação natural de determinados isótopos químicos proporcionando um meio eficiente e "quase" exato para determinar a idade das várias rochas da terra. A terra, por seu turno - mediante o uso do mesmo critério, tem a idade de 4,5 bilhões de anos. Repentinamente, há alguns milhões de anos surgiram diferentes tipos de 'vida microbiana', organismos unicelulares capazes de armazenar informações, "talvez" pelo uso de DNA, com capacidade de se auto-reproduzir e evoluir em "inúmeros tipos diferentes". Não vamos nos estender muito nesses pormenores, mas o fato é que tais organismos, segundo a ótica naturalista, podiam fazer um intercâmbio rápido de DNA entre as várias células minúsculas existentes, interagindo por completo. A pergunta teimosa: como surgiram esses organismos que se auto-reproduziam? O que prova o naturalismo? Não se sabe. Há apenas "hipóteses", incapazes de "responsabilizar" o próprio ambiente de 'per se' pelo desenvolvimento da vida.

É necessário considerar que, se o naturalismo não apresenta prova contundente sobre a origem da vida, qual a certeza que possuem os seus defensores? Se não se comprova o principal, como crer no acessório? Vale dizer que, se não há demonstração científica quanto à origem da vida, como crer na evolução das espécies pela seleção natural?

Sigamos em frente. Diz o autor: "Parece totalmente improvável que uma molécula como o DNA, com sua estrutura de açucar-fosfato e bases orgânicas dispostas de forma complexa, empilhadas umas sobre as outras e emparelhadas em cada degrau de uma hélice dupla e retorcida, tenha "apenas acontecido" [1]. Tampouco o RNA munido da sua capacidade de "fazer as coisas acontecerem por conta própria" possui igual capacidade de "se copiar". Não há experimentos nesse sentido comprovando essa possibilidade.

Diante da lacuna, Collins faz a seguinte indagação: "Se Deus tivesse a intenção de criar o universo, a fim de chegar a criaturas com as quais pudesse ter uma afinidade, ou seja, seres humanos, e se a complexidade exigida para iniciar o processo da vida estivesse além da capacidade de automontagem da química do universo, não poderia Deus ter interferido para começar o processo?" A resposta dada pelo autor é a seguinte: "A fé que coloca Deus nas lacunas de uma compreensão dos dias de hoje sobre o mundo natural pode levar a uma crise se os avanços na ciência preencherem, posteriormente, tais lacunas" [2].

Os registros fósseis demonstram que "organismos unicelulares" aparecem em sedimentações com 550 milhões de anos, embora se argumentando que nesse mesmo período (cambriano) possam ter aparecido organismos mais sofisticados, posto que surgem também no mesmo período "arranjos de corpos de invertebrados" (explosão do cambriano). Mas também há controvérsias, não existindo provas incisivas. E também aqui não é de bom alvitre que se coloque o "Deus das lacunas" como elemento sobrenatural a originar a explosão da vida com base exclusiva em tais evidências. Outros registros demonstram que a terra permaneceu árida até cerca de 400 milhões de anos atrás, ponto em que "surgiram as plantas, derivadas de formas de vida aquáticas". Apenas 30 milhões de anos depois , os animais também se deslocaram para a terra. Porém, outra lacuna: é que aparecem "poucas formas de transição entre criaturas marinhas e tetrápodes, que habitaram a terra no registro fóssil".

Outro registro fóssil rico é o aparecimento dos dinossauros, que, segundo os mesmos estudos com base no mesmo critério de datação, sugere que eles surgiram há cerca de 230 milhões, dominando a terra, e chegando ao fim repentino e catastrófico há aproximadamente 65 milhões de anos, com a queda de um imenso asteróide onde hoje fica a península de Iucatã, ocasionando terríveis mudanças climáticas pela vasta quantidade de poeira na atmosfera.

Eis que surge Charles Darwin e, a partir de observações nas Ilhas Galápagos entre 1831 e 1836, observou pelos fósseis a "diversidade de formas de vida em ambientes isolados". Em 1859, redigiu e publicou as suas ideias em "A origem das espécies" . O maior argumento do naturalista inglês era que "todas as espécies vivas descendiam de um conjunto pequeno de ancestrais comuns, talvez apenas um", asseverando ainda que a "variação em uma espécie acontecia de modo aleatório e que a sobrevivência ou a extinção de cada organismo dependia de sua habilidade para adaptar-se ao ambiente, ao que deu o nome de "Seleção natural" [3].

Qual a posição, à época da publicação da obra, dos teólogos? "Na verdade , Benjamin Warfield, de Princeton, teólogo protestante notável e conservador, aceitou a evolução como uma teoria do método da providência Divina, embora defendesse a ideia de que a evolução teria um autor sobrenatual" [4].

Um fato interessante deve ser lembrado, se a "Teoria da Evolução" é tão nociva à ideia da existência de Deus, porque Darwin foi enterrado no Mosteiro de Westminster?

Ora, o autor descreve que o próprio Darwin tinha uma preocupação profunda com o efeito de sua teoria sobre a crença religiosa, e, em "A origem das espéicies" , esforçou-se para salientar uma possível interpretação harmoniosa:

"Não vejo nenhum bom motivo para os pontos de vista apresentados neste volume chocarem os sentimentos religiosos de alguém [...] um elogiado escritor e teólogo escreveu-me que "gradualmente aprendeu a ver que é uma concepção tão nobre dos deístas acreditar que ele criou umas poucas formas originais capazes de se autodesenvolver em outras, mais indispensáveis, quanto crer que ele precisava de um ato estimulante de criação para compensar os vazios causados pela ação de suas leis" [5].

Eis que Darwin conclui a obra (A origem das espécies) com o seguinte texto:

"Há uma grandeza nessa visão da vida, com seus vários poderes, tendo ela sido lançada como o sopro da vida originalmente pelo Criador em poucas formas ou uma; e que, enquanto este planeta vinha orbitando de acordo com a lei da gravidade estabelecida, a partir de um início tão simples, inúmeras formas, cada vez mais belas e maravilhosas foram, e continuam, evoluindo" [6].

A própria condição de Darwin era ambígua, pois, se em um determinado momento ele se reconheceu agnóstico, em outro, ele considerou a possibilidade de ser teísta:

"Pela extrema dificuldade, ou uma quase impossibilidade de conceber este universo imenso e maravilhoso, incluindo o homem com sua capacidade de examinar o passado tão distante e o futuro tão longínquo, como resultado de uma oportunidade ou necessidade cegas. Quando medito dessa maneira, sinto-me atraído a observar a Primeira Causa como tendo uma mente inteligente em algum grau análoga a essa dos homens; e mereço ser chamado de teísta" [7].

Concluo dizendo que a fé não necessita de provas da "existência de Deus" para existir ou se manter, pois, conforme cremos, nasce da revelação, mediante chamado do próprio Deus (Efésios 2:8-9; João 6:44, 65 e 15:16). Contudo, nada impede que busquemos nos informar até para que possamos defender a nossa fé - e não a Deus, posto que Ele não necessita ser defendido.

Quando nos acusam, porém, de não possuirmos as respostas baseadas em provas, da existência de Deus, os naturalistas também não as possuem , posto que jamais conseguiram se desvincular do calcanhar de Aquiles: Como tudo se iniciou, de onde viemos e para onde vamos?

No próximo falarei do design inteligente e teísmo evolucionista, se Deus permitir.


Fonte: Francis S. Collins, "A Linguagem de Deus", 6ª edição, Editora Gente, tradução Giorgio Capelli, 2007.

[1] Obra cit. p. 97
[2] Obra cit. p. 99
[3] DARWIN, C. R. , The Origin of Species. New York, Penguin, 1958, p. 456 - Obra cit. p. 103
[4]WAFIELD B. B. "On The Antiquity and the Unit of the Human Race". Princeton Theological Review, v. 9, 1911, p. I-25.
[5] DARWIN, obra cit. p. 452 - ibidem p. 104
[6] DARWIN, obra cit. p. 459 - ibidem p. 105
[7] In MILLER, R. "Finding Darwin's God". New York Harper Collins, 1999, p. 287 - obra cit. p. 105.




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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Evolução, teísmo e ateísmo: síntese do pensamento de Francis S. Collins ("A linguagem de Deus")


O livro é deveras interessante porque mostra em detalhes o pensamento de um grande cientista ateu levado à crença em Deus pelas evidências que observou quando chefiava o "Projeto Genoma". De onde viemos e para onde vamos, eram as perguntas que ele também fazia, já que as leis naturais não lhe ofereciam todas as respostas: "... ficara claro para mim que a ciência, apesar de seus poderes inquestionáveis para desvendar os mistérios do mundo natural, não iria me levar mais adiante na resolução da questão de Deus. Se Deus existe, deve se encontrar fora do mundo natural e, portanto, os instrumentos científicos não são as ferramentas certas para aprender sobre ele". [1]

BIG BANG - As mesmas considerações feitas pelo autor também em algum momento foram feitas por nós, leigos: o que veio antes do big bang? Como pôde surgir do nada um universo tão complexo, senão originado de uma "inteligência" por trás do nada (ex nihilo)? "A existência do big bang suplica por uma pergunta sobre o que veio antes e quem ou o que foi responsável. Na certa isso demonstra os limites da ciência como nenhum outro fenômeno" [2] assevera o cientista.

Citando o astrofísico Robert Jastrow na obra "God and the astronomers" (Deus e os astrônomos), a admiração diante dessa simples constatação se solidifica:

"Neste momento parece que a ciência nunca será capaz de erguer a cortina acerca do mistério da criação. Para o cientista que viver pela sua fé na força da razão, a história encerra como um sonho ruim. Ele escalou as montanhas da ignorância; vê-se prestes a conquistar o pico mais alto; à medida que se puxa para a rocha final, é saudado por um bando de teólogos que estiveram sentados ali durante séculos" [3]

Tudo indica que o universo surgiu de uma ação repentina determinada no tempo o que levou Collins a concluir que "o big bang grita por uma explicação Divina. Obriga à conclusão de que a natureza teve um princípio definido. E vaticina na sequência: "Não consigo ver como a natureza pôde ter se criado . Apenas uma força sobrenatural, fora do tempo e do espaço, poderia tê-la originado" .[4]

Discorrendo ainda sobre a formação do sistema solar que se deu após o big band, a sua expansão e a aglutinação da matéria para formar as galáxias regidas pela lei da gravidade compondo-se dos seus elementos químicos; tudo isso considerando-se o lapso de milhões de anos , porém, o sol, somente vindo a se formar tempos depois, sendo uma estrela de segunda ou terceira geração (5 bilhões de anos atrás). Parece que tudo isso implicaria em um universo formado em eras, ao contrário de dias, conforme relatado no gênesis (levando a crer que o relato não deve ser lido na sua literalidade).

Algo muito interessante frisado por Collins sobre o princípio antrópico é a assimetria que houve entre matéria e antimatéria, uma vez que para cada cerca de bilhão de pares de quarks e antiquarks, havia um quark a mais. E essa assimetria "aleatória" foi exatamente o que possibilitou a formação do universo, pois, do contrário, caso houvesse uma total simetria entre matéria e antimatéria, salienta o autor, "O universo rapidamente teria se desenvolvido em radiação pura; e pessoas, planetas, estrelas e galáxias jamais teriam existido" [5] . O que me leva a perguntar: será que essa assimetria surgiu mesmo aleatoriamente, fruto do imponderável apenas?

A verdade é que, consideradas todas as "constantes físicas" existentes ( quinze) e os seus valores tendentes e necessários a sustentar um universo estável, com formas de vida, pode se chegar quase ao infinito ( em termos de valores), provando que este nosso universo é muito improvável, segundo as palvras de Francis Collins. Improvável mas está aqui, com essas mesmas constantes fixas e com os seus valores definidos, mantendo-o. Por quê? É ainda a pergunta que teima em aflorar...

O autor cita o também cientista Stephen Hawking (físico) em "Uma breve história do tempo" , confirmando a existência de uma vontade divina por trás de tudo: "Seria difícil explicar porque o universo teria começado desta exata maneira, a não ser como o ato de um Deus que quisesse criar seres como nós" [5].

Depois de citar em sua obra inúmeros cientistas considerando a improbabilidade do surgimento do universo e do planeta terra com as suas "particularidades" tendentes a sustentar vida em toda a sua diversidade, como conhecemos, o autor cita Arno Penzias, cientista ganhador do Prêmio Nobel, que descobriu em paralelo a radiação cósmica de microondas em segundo plano e que possibilitou sólido respaldo para o big bang , afirmando: "Os melhores dados que temos são exatamente aqueles que eu havia previsto, e eu não tinha com o que prosseguir a não ser os cinco livros de Moisés, os Salmos, a Bíblia como um todo" [6). E então Collins completa: "Talvez Penzias estivesse pensando nas palavras de Davi no Salmo 8: "Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem para que te lembres dele?" [7].

Collins chega à conclusão de que " O próprio big bang aponta fortemente para um Criador, já que, caso contrário, a pergunta sobre o que veio antes fica suspensa no ar" [8].

No próximo post sobre o assunto, e ainda com base no livro e autor, descreveremos sob Cosmologia e Deus, Vida na terra, Teoria da evolução, Teoria do design inteligente e Teoria da evolução teísta.


Fonte: Francis S. Collins, "A linguagem de Deus", 6ª edição, Editora Gente, tradução Giorgio Capelli - 2007.


[1] obra cit. p. 38
[2] obra cit. p. 74
[3] obra cit. p. 74, Jastrow R. "God and astronomers". New York: W W Norton, 1992, p. 107
[4] obra cit. p. 75
[5] obra cit. p. 82, Hawking, obra cit. p. 63
[6] obra cit. p. 82/83, In Browne , M. "Clues to the Universe". New York Times, 12 march.
[7] obra cit. p. 83
[8] obra cit. p. 83, fine.

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segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Testemunhos" ao púlpito: Deus ou mamom?



A igreja evangélica tem passado por inúmeras transformações nos últimos tempos, de tal maneira que, grosso modo, não se tem mais como caracterizar as diferenças que há entre as tradicionais, pentecostais e neopentecostais, salvo raríssimas exceções. Na maioria das vezes elas se confundem, não em razão da "liturgia" , mas pela falta de qualquer liturgia: pura balbúrdia, verdadeiro caos.

Quem prima pelo estudo das Escrituras tem facilidade em comprovar uma série de desvios doutrinários que vem ocorrendo nessas igrejas. E são tantos que se torna difícil enumerá-los, ou mencioná-los em uma certa ordem de importância.

Neste texto quero avaliar um fato que ocorre nos púlpitos das "igrejas emergentes" e que muito me incomodou há pouco tempo e ainda incomoda. Antes, devo confessar, incomodava mais, visto que eu assistia "tête a tête" ao triste espetáculo. Hoje, pelo menos, Deus agraciou-me com a dádiva de ser poupado do triste "teatro do absurdo", posto que estou frequentando uma igreja presbiteriana voltada exclusivamente para o estudo das Escrituras, e a sua completa observância, inclusive no que concerne a uma rígida liturgia, onde não se aceita qualquer forma de desvio doutrinário, ainda que "disfarçado de luz" (parafraseando as próprias Escrituras).

Estou a falar dos tais "testemunhos" dados ao púlpito, geralmente provocados pelo pastor sob o pretexto de "enaltecer" a Deus ( ou quem sabe lhe dar uma ajudazinha através de um marketing gospel). E então o tom apelativo tem lugar: "- algum irmão tem uma bênção para testemunhar à igreja?" Ou então: "- Deus não fez nada para ninguém, que fé é essa?". E eis que logo aparece um, dois, três, normalmente a exaltar as "maravilhas do Deus que tudo faz em prol dos seus "adoradores", o dono do "ouro e da prata". E dá-lhe ouro e prata!!!

E os tais testemunhos são recheados de mal disfarçada vanglória. Eles exaltam a Deus? Sim, dirão os "evangélicos" de agora. Todavia, não é o que demonstra o contexto escriturístico: o Evangelho é simples e não precisa de qualquer complemento para convencer quem quer que seja da sua eficácia. Deus é Todo-Poderoso, Soberano e Senhor de todas as coisas (não somente do ouro e da prata), por isso mesmo não necessitando de marketing. Aliás, quem precisa das "técnicas de convencimento" são aqueles com sérias dificuldades para crer no Deus Invisível propagado e anunciado pela Bíblia (Hb 11).

Testemunhos em tom apelativo como se veem por aí, inclusive nas denominações históricas, salvo exceções - e aqui quero fazer justiça à Igreja Presbiteriana que não costuma se valer dos referidos "expedientes" - servem exclusivamente para "fazer propaganda da igreja", do pastor, da liderança, ou de todo o conjunto. Eles querem anunciar que "a minha igreja faz milagres"; ou que "Deus atua nesta igreja".

Uma marca dos tais "testemunhos" é a apologia ao "ter", ao invés do "ser". Aqueles que já assistiram aos malfadados testemunhos urdidos nessas igrejas sabem a que me refiro. São automóveis conquistados, doenças curadas, terrenos que num piscar de olhos foram adquiridos como que num passe de mágica ( e olha que o sujeito não tinha dinheiro algum), casas presenteadas, etc. Normalmente o ápice do testemunho se dá no momento em que o incauto diz: "- antes de vir para a igreja eu estava assim (pobrezinho, sem casa, sem carro...), mas agora, o dono do "ouro e da prata..." (discorre então sobre todos os ganhos que lhe foram acrescentados depois que se "converteu" na tal igreja).

É o "deus" do ter, e o nome dele não é Yaweh (Jeová), mas mamom. Essas pessoas, muitas delas levadas ao engano por uma liderança avarenta , mentirosa e oportunista, são desviadas da sã doutrina, ou doutrinadas erradamente. O Apóstolo Paulo nos lembra que "nos foi concedida a graça de padecermos por Cristo e não somente de crermos nele" (Filipenses 1:29).

A fé não se mede por "coisas", ou acúmulo de bens materiais, uma vez que o próprio Cristo nos admoestou a "não acumularmos tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam "(Mateus 6:19), mas que devemos trabalhar para juntar tesouros no céu (v. 20).
Onde está o seu tesouro, nas riquezas de Mamom, ou nas riquezas celestiais de Deus ? Reflita bem, pois "onde estiver o seu tesouro, lá estará também o seu coração" (v. 21).

Devemos ter em Deus o nosso Senhor e não o nosso serviçal. O "dono do ouro e da prata" é antes de tudo o 'dono da nossa salvação". O "Senhor e consumador da nossa fé". E esta, para ser verdadeira, prescinde de obras, de marketing, de testemunhos sobre riquezas materiais, de curas, milagres... O maior milagre é a transformação de vidas, presente de Deus em nós (Fl 2:13). O próprio Apóstolo Paulo jamais buscou riquezas ou fez apologia do "ter", antes, enaltecendo as suas próprias fraquezas, para exaltar a força de Deus em sua vida (2 Coríntios 12:10). Fé verdadeira, nesse diapasão, é exercitada muito mais nos tempos de 'escassez', 'angústia' e 'perseguições', do que propriamente em época de abundância.

Portanto, diz o Apóstolo, "Não vos enganeis, de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá vida eterna" (Gálatas 6:7-8).

E que fique bem claro, a fim de que não deturpem as minhas palavras, o texto, e, tampouco o Evangelho de Cristo, pois não digo que é pecado "ter". Pecado é "amar o ter"; amar primeiro as "coisas", antes do Criador. Pecado é "usar o ter" como técnica para "chegar ao ser", como se Deus precisasse de uma 'ajudazinha'.

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