segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Graça e soberania divina


Já faz algum tempo que decidi terminantemente não tratar de questões reformadas com arminianos confessos e convictos, especialmente no que concerne a predestinação e eleição; enfim, não discutir com eles as doutrinas da graça. É que os tais nos acusam de heresias, mesmo quando nos firmamos exclusivamente em textos bíblicos devidamente contextualizados. Os arminianos, no entanto, não somente descontextualizam os seus, como atropelam os nossos.

Cansei das longas discussões. Outrora eu ainda travava os tais embates em ótimos blogs reformados como o cinco solas, mas verifiquei que nada se produzia, uma vez que os oponentes continuavam cada vez mais empedernidos na sua cosmovisão, resistindo veementemente aos próprios textos bíblicos com argumentos extra-bíblicos ou inteiramente incoerentes, no afã de se agarrarrem, qual náufragos, em sua pequena tábua. E então, mantive-me quase recluso, restrito às trocas de experiências com irmãos reformados e alguns poucos que não se definem teologicamente e tampouco querem fazê-lo - e eu os respeito, pois são ótimos cristãos.

Acredito que não é a nossa cosmovisão que nos leva a Cristo, mas o próprio Cristo, por intermédio da graça proveniente de Deus-Pai (Efésios 2:8-9). Temos uma vontade real e fazemos escolhas "livres", porém não-autônomas. Grosso modo, defino isso de graça, proveniente de um Deus absoluta e irresistivelmente soberano.

Pois é, fiel à minha opção de não discutir com arminianos as doutrinas da graça, dia destes voltei a um blog de viés arminiano para discutir um texto de autor reformado, versando sobre a perseverança dos crentes. Postei o meu comentário concordando com o texto e associando graça a soberania, o que bastou para que uma longa discussão se travasse em razão do meu comentário, pois, segundo o crítico, a minha associação denotava uma visão estreita. Não estou aqui a combater o crítico, mas a provocação me fez refletir sobre o assunto, dando azo a este despretensioso texto que não quer ser um tratado teológico - que fiquem bem claras as duas afirmações.

E depois de muito refletir, não somente volto a afirmar como a corroborar que graça e soberania divinas estão inapelavelmente associadas, na medida em que a primeira ação é, por força de definição simples, " favor imerecido para a salvação", enquanto que a soberania é a ação que provém de Deus sem encontrar limites, obstáculos ou entraves. Portanto, graça está associada à soberania de Deus na medida em que provém essencialmente dEle; somente Deus pode concedê-la à criatura mediante o seu beneplácito (Filipenses 2:13). À luz da passagem bíblica citada, Deus, exclusivamente Ele, possui a capacidade de efetuar em nós tanto o querer como o realizar.

Vejamos mais especificamente a definição dos termos graça e soberania divina tanto pelo "Dicionário Bíblico Almeida" , como também a raiz das palavras no original hebraico e grego (Strong):

GRAÇA (DBA2) - 1) O amor de Deus que salva as pessoas e as conserva unidas com ele (Sl 90.17; Ef 2.5; Tt 2.11; 2Pe 3.18).
2) A soma das bênçãos que uma pessoa, sem merecer, recebe de Deus (Sl 84.11; Rm 6.1; Ef 2.7).
3) A influência sustentadora de Deus que permite que a pessoa salva continue fiel e firme na fé (Rm 5.17; 2Co 12.9; Hb 12.28).
4) Louvor; gratidão (Sl 147.7; Mt 11.25).
5) Boa vontade; aprovação MERCÊ (Gn 6.8; Lc 1.30; 2.52).
6) Beleza (Pv 31.30).
7) Bondade (Zc 12.10).
8) “De graça” é “sem pagar” (Gn 29.15; Mt 10.8).
(Strong) - 02580 חן chen
procedente de 2603; - 694a; n m
1) favor, graça, charme
1a) favor, graça, elegância
1b) favor, aceitação


SOBERANIA (DBA2) - 1) Domínio; autoridade (Jd 25). 2) POTESTADE 1, (Cl 1.16, RA).
(Strong) - 04467 ממלכה mamlakah
procedente de 4427; - 1199f; n f
1) reinado, domínio, reino, soberania
1a) reino, domínio
1b) soberania, domínio
1c) reino


Portanto, a meu ver, graça somente pode vir de Deus; é qualidade e capacidade personalíssimas do Criador; Ele, tem, pois, domínio na distribuição da referida graça, que não pode ser distribuída por ninguém mais. Portanto, repito, corroboro e reafirmo, que não há como não associar os dois termos ao seu único autor. Assim, forçoso reconhecer que "Deus tem domínio sobre a graça"; esse direito na aplicação de tal beneplácito é exclusivo dEle.

O fato de afirmar ou fazer tal associação não tem o condão de colocar-me em confronto ou em conflito com os meus irmãos arminianos por si só, como ocorreu naquela oportunidade em que fui acusado de ter visão estreita.

A minha afirmação feita acima, antes de se qualificar como provocação aos arminianos, é a prova inconteste da cosmovisão que tenho: sou reformado e creio na "depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e na perseverança dos santos". Entretanto, o ponto em que se deu a discordância, conforme consigo depreender (embora não sendo fácil, tendo em vista a incoerência da afirmação) é a graça associada à soberania de Deus e perserverança dos crentes (santos). Como se o fazer a afirmação fosse uma "heresia". Mas também é fato que, ao afirmar os cinco pontos que dão origem ao calvinismo, automaticamente nego os pontos em que se afirmam aqueles com a cosmovisão arminiana, sem que isso possa ser confundido com provocação. É simplesmente consequência natural, uma vez que ambas as cosmovisões são excludentes.

Não posso negar, sob pena de incorrer em grave farisaísmo, que a posição arminiana se apresenta aos meus olhos como absolutamente inconsistente, biblica, exegética e hermeneuticamente. Normalmente os arminianos são meio que híbridos em sua soteriologia. Costumo observar que alguns deles afirmam e acatam a depravação total, enquanto negam a graça irresistível, para, evidentemente, negar aquela minha afirmação primeira (associação entre graça e soberania divina). E é bem nesse ponto que se dá a maior incoerência, pois em se considerando a depravação (total) da humanidade pós-queda, não há a menor capacidade de autonomia humana (livre arbítrio) no processo salvífico (Romanos 3-10-12 , 23). Porém, vá fazer com que eles entendam...

Difícil imaginar que um bando de mortos espiritualmente possa ter em si mesmo algum resquício de capacidade, estando mortos. E é nesse ponto que os apóstolos Paulo e João são irrefutavelmente claros:

Efésios 2: 1 Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. 8 Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.

Romanos 5: 12 Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
Romanos 5: 15 Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos.
Exatamente por estarem mortos e sem qualquer capacidade para escolher crer ou se salvar é que Deus, na sua completa e absoluta soberania e poder, chamou alguns dentre pecadores, por intermédio da graça (irresistível) para que sejam salvos (Romanos 9:11-23), enquanto outros foram reprovados:

João 17: 8 porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. 9 É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.

João 6: 37 Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.
João 6: 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.
A fé não é de todos porque Deus não a concedeu a todos , mas apenas aos seus eleitos (Tito 1:1-2 e 2 Tessalonicenses 3:1-2). E aqueles que vêm a crer fazem-no pelo chamado de Deus (...e esse virá a mim).

A eleição não tem a ver com nação ou igreja , mas com indivíduos; o contexto bíblico de modo algum leva a esse entendimento torto, senão tortuoso (Romanos 8:28-30, 9:11-23). Aqueles que assim entendem, de certa forma tornam esse Deus mais "injusto" ainda, ao eleger uma universalidade.

Portanto, afirmo, reafirmo e corroboro, exclusivamente firmado nas Escrituras, obedecido o seu contexto imediato e mediato, que ninguém pode resistir à graça, não pode escolher ter fé por seus próprios meios e méritos, por estar morto espiritualmente; e que esse mover cabe exclusivamente a Deus, através de Cristo, morto e ressurreto.

Quanto à discussão com arminianos, continuo cada vez mais renitente em tê-la.

6 comentários:

Casal 20 disse...

Querido Ricardo, sua "visão estreita" é da mais larga Graça! Afirmo-a, reafirmo-a e corroboro-a também! E toda glória à Sobrenia de Deus que derrama a sua Graça como bem lhe aprouver, uma vez que somos todos indignos da maravilhosa salvação de Deus!

Abraços e parabéns pela clareza do texto.

Regina Farias disse...

Ricardo,

A melhor coisa que eu fiz na vida foi desistir de estudar teologia, pois seria muito mais chatinha do que sou he he

Que coisa mais "sem graça" essa pretensão desse povo, não? Afe, não tenho paciência, ainda bem que não sou Deus rsss

Aliás, Deus deve estar rindo destes, não tenho dúvida.

Texto excelente!!!

Abs,

R.

J.C. de Araújo Jorge disse...

O título do seu blog é 10.
Visite o meu blog: discipulodecristo.blogspot.com

Ruffles2 disse...

Visita aê ?
www.ruffles2.blogspot.com

LUCIANO, simplesmente servo de DEUS! disse...

Olá amigo e irmão em Cristo Ricardo,
graça e paz meu amado.

Passei um tempinho fora do ar, com uns probleminhas internos rsrsr, mas está tudo bém.
meu amigo tenha um ótimo 2010, que Deus continue te dando forças e te expirando a postar palavras edificantes pra todos nós. abração pra voçê e toda familia.

LUCIANO, simplesmente servo de DEUS! disse...

ps!! copiei pra estudo os termos, Graça e soberania divina. abraço.

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