quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ecumenismo e heresias



Carta ao Papa Pio IX

por

Charles Hodge


A seguinte carta foi transcrita de um esboço manuscrito de Charles Hodge, que a escreveu em nome de duas Assembléias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, para explicar por que motivo declinou-se do convite do Papa aos Protestantes para enviarem delegados ao Primeiro Concílio Vaticano de 1869 a 1870.


A Pio IX, Bispo de Roma.


Pela vossa encíclica, datada de 1869, convidais os protestantes a enviarem delegados para o Concílio convocado a reunir-se em Roma durante o mês de dezembro, do corrente ano. Esta carta foi levada ao conhecimento de duas Assembléias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América. Estas Assembléias representam cerca de cinco mil ministros e um número bem maior de congregações cristãs.

Crendo, como cremos, que é a vontade de Cristo que a Sua Igreja na terra deva ser unida, e reconhecendo que temos o dever de fazer coerentemente tudo que pudermos para promover a caridade e a comunhão crista, julgamos por certo apresentar resumidamente as razões que nos proíbem de participar nas deliberações do Concílio vindouro.

Não é que tenhamos rejeitado nenhum artigo da fé católica. Não somos heréticos. Recebemos sinceramente todas as doutrinas contidas no Símbolo conhecido como o Credo dos Apóstolos. Consideramos todas as decisões doutrinárias dos primeiros seis concílios ecumênicos como consistentes com a Palavra de Deus, e por causa disso os recebemos como expressão da nossa fé. Cremos portanto na doutrina da Trindade e da pessoa de Cristo conforme expressas nos símbolos adotados pelo Concílio de Nicéia (321 A.D.), nos do Concílio de Constantinopla (381 A.D.), e mais inteiramente nos do Concílio de Calcedônia (451 A.D.). Cremos que há três pessoas na Divindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; e estes três são de uma mesma substância e iguais em poder e glória.

Cremos que o Eterno Filho de Deus tornou-se homem ao tomar sobre si um corpo verdadeiro e alma racional, e assim foi e continua a ser, igualmente Deus e homem, em duas naturezas distintas numa pessoa para todo sempre. Cremos que o nosso adorável Senhor e Salvador Jesus Cristo é o profeta que deveria vir ao mundo, em cujos ensinamentos devemos crer, e em cujas promessas, confiar. Ele é o Sumo Sacerdote de quem a infinita satisfação meritória à justiça divina, e intercessão sempre eficaz, é a única base para a aceitação e justificação do pecador diante de Deus.

Reconhecemo-Lo como nosso Senhor não apenas por sermos Suas criaturas, mas por termos sido comprados pelo Seu sangue. À Sua autoridade devemos nos submeter, em Seu cuidado confiar, e todas as criaturas no céu e na terra devem ser consagradas ao Seu serviço.

Recebemos todas aquelas doutrinas concernentes ao pecado, à graça e a predestinação — conhecidas coma Agostinianas — que foram sancionadas não apenas pelo Concilio de Cartago e outros Sínodos provinciais, mas também pelo Concílio Ecumênico de Éfeso (431 AD.), e por Zózimo, bispo de Roma.

Não podemos, por essa causa, ser acusados de heréticos sem que, conjuntamente, se condene toda a antiga igreja.

Tampouco somos cismáticos. Afetuosamente reconhecemos como membros da Igreja visível de Cristo na terra, todos aqueles que, juntamente com seus filhos, professam a verdadeira religião. Não só estamos dispostos, mas também ardentemente desejosos em manter comunhão cristã com eles, desde que não exijam, como condição desta comunhão, que professemos doutrinas que a Palavra de Deus condena, ou que devamos fazer o que ela proíbe. Em todo caso, qualquer igreja que estabelece tais termos antibíblicos para a comunhão, o erro e a falta está nesta igreja, e não em nós.

Embora não declinamos do vosso convite por sermos heréticos ou cismáticos, somos, entretanto, impedidos de aceitá-lo porque adotamos, com uma confiança cada vez maior, os princípios pelos quais nosso pais foram excomungados e amaldiçoados pelo Concílio de Trento, que representou, e ainda representa, Igreja sobre a qual presidis.

O mais importante desses princípios são: primeiro, que a Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Velho e do Novo Testamento é a única e infalível regra de fé e de prática.

O Concílio de Trento, contudo, declarou anátema todo aquele que não recebe o ensinamento da tradição “pari pietatis affectu” (com igual sentimento piedoso) como as próprias Escrituras. Não podemos fazer isso sem incorrer na condenação que nosso Senhor pronunciou contra os fariseus que invalidavam a Palavra de Deus pelas tradições deles (Mt. 15:6). Em segundo lugar, o direito de julgamento individual. Quando abrimos as Escrituras, descobrimos que elas são voltadas para as pessoas. Elas falam conosco. Somos ordenados a buscá-las (Jo 5:39), a crer no que elas ensinam.

Somos pessoalmente responsáveis pela nossa fé. O apóstolo nos ordena a denunciar como anátema, apóstolo ou anjo descido do céu que ensine qualquer coisa contrária à Palavra de Deus divinamente autenticada (Gal.1:8). Ele nos tornou juizes, colocando em nossas mãos o preceito do julgamento, e nos fez responsáveis pelos nossos julgamentos.

Ainda mais, encontramos que o ensinamento do Espírito Santo foi prometido por Cristo não apenas ao clero, muito menos a uma específica ordem clerical, mas a todos os crentes. Está escrito: “E serão todos ensinados por Deus”. O apóstolo João diz aos crentes: E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento [...] Quanto a vós outros, a unção que dEle recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, com a Sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nEle, como também ela vos ensinou” (1 João 2:20,27).

Este ensinamento do Espírito autentica a si mesmo, como o mesmo apóstolo nos ensina, quando diz; : “Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho” (1 João 5:10).

Não vos escrevi porque não saibais a verdade: antes, porque a sabeis e porque mentira alguma jamais procede da verdade” (1 João 2:21). O julgamento particular, é, portanto, não apenas um direito, mas um dever, do qual homem algum pode isentar-se a si mesmo, ou ser desobrigado por outros.

Cremos, em terceiro lugar, no sacerdócio universal dos crentes, isto é, todos os crentes têm através de Cristo acesso ao Pai em um Espírito (Ef 2:18); para que possamos nos achegar com ousadia ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e encontrar graça para socorro em tempo de necessidade (Hb.4:16); “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura” (Hb. 10:19-22).

Admitir, portanto, o sacerdócio do clero, como intervenção necessária para nos assegurar a remissão do pecado e outros benefícios da redenção de Cristo, é renunciar ao sacerdócio de nosso Senhor, ou a suficiência deste sacerdócio em nos assegurar a reconciliação com Deus. Em quarto lugar, negamos a perpetuidade do apostolado. Assim como nenhum homem poder ser apóstolo sem o Espírito de profecia, também nenhum homem pode ser apóstolo sem os dons de apóstolo. Tais dons, como aprendemos pela Escritura, eram o conhecimento plenário da verdade derivada de Cristo pela revelação imediata (Gal.1:12), e infalibilidade pessoal como mestres e legisladores. Paulo nos ensina quais eram os selos do apostolado, quando diz aos Coríntios: “Pois as credenciais do apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos” (2Cor. 12:12). Não podemos nos submeter a prelados que reivindicam ser apóstolos, e que requerem a mesma confiança em seus ensinamentos, e a mesma submissão à sua autoridade, como a que é devida aos inspirados mensageiros de Cristo. Isto seria conceder a homens falíveis a submissão devida somente à Deus ou aos seus mensageiros divinamente autenticados e infalíveis.

Muito menos podemos reconhecer o Bispo de Roma como o vigário de Cristo sobre a terra, coberto da autoridade que Cristo exerceu sobre a Igreja e o mundo, quando aqui esteve encarnado.

É patente que ninguém que não tenha os atributos de Cristo não pode ser o vigário de Cristo. Considerar o Bispo de Roma como vigário de Cristo, é, portanto, reconhecê-lo virtualmente como divino. Devemos permanecer firmes na liberdade com que Cristo nos libertou. Não podemos ser despojados da nossa salvação por colocarmos um homem no lugar de Deus; concedendo a alguém semelhante a nós, o controle interior e exterior de nossa vida, o que é devido unicamente Àquele em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e em quem habita a plenitude da Divindade.

Poder-se-iam assinalar outras razões, igualmente compulsórias, pelas quais não podemos, de boa consciência, ser representados no Concílio proposto. Entretanto, como o Concilio de Trento, cujos cânones ainda vigoram, declarou maldito todo aquele que crê nos princípios enumerados acima, nada mais é necessário para demonstrar qual a razão por que declinamos do vosso convite.

Conquanto não possamos voltar à comunhão com a Igreja de Roma, desejamos viver em caridade com todos os homens. Amamos todos aqueles que sinceramente amam ao nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como irmãos em Cristo todos aqueles que O adoram, O amam, e O obedecem como seu Deus e Salvador; e esperamos estar juntos no Céu com todo aquele que juntamente conosco na terra, declara:

“Àquele que nos ama, e, pelo Seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o Seu Deus e Pai, a Ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém” (Ap.1:6).

Assinado em nome das duas Assembléias Gerais da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América,


Charles Hodge.


"Texto enviado por email pelo Pr. Esli Soares expressando a preocupação atual com essa história de 'ecumenismo", que ainda assola os verdadeiros crentes. Porém, muitos embarcam nisso, baseando-se, principalmente, em um estranho amor cristão que não está imune nem às heresias e tampouco à apostasia."

11 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Esli,

É incrível como as coisas se repetem... esse engano de ecumenismo vem sendo propalado pela igreja Romana ao longo do tempo e se mantém na atualidade. Não raro vemos essas tais reuniões. Então eu pergunto: é possível que a luz coabite com as trevas? Pode-se servir a dois senhores, Deus e o diabo? Não serei eu a responder, basta buscar as respostas na Bíblia.

Excelente esse texto, e muito propositivo para os dias atuais, onde há até pastores/cantores participando desses "movimentos ecumênicos", como o tal André Valadão (cuja irmã é a Ana Paula das unções), pregando essa aglutinação espúria.

Maranata!

Ricardo.

João Carlos disse...

Amado irmão Ricardo,

Realmente este texto se torna atualíssimo! Vou ler e reler, tirando sempre um ponto a mais para edificação de minha fé.

Um grande abraço!

JC

Ricardo Mamedes disse...

João, caríssimo irmão!

Muito bom recebê-lo novamente por aqui! De fato, o texto é bom mesmo. Esse tal ecumenismo é um danado de um engano, assim como é engano a estória de que "todos os caminhos levam a Deus" . No caso da Igreja romana, dentre tantas heresias, eles querem fazer crer com seus dogmas que Maria é o caminho para a salvação, e não o Senhor Jesus!

Não dá mesmo pra juntar princípios cristãos/protestantes com outros espúrios, como os da igreja católica romana e os seus credos.

Grande abraço e que Deus o abençoe.

Ricardo

João Carlos disse...

Meu irmão, faz uma visita aos pobres, faz tempo que vc não passa lá no meu blog!

Abraço!

JC

Neto disse...

Amado irmão Ricado!
Charles Hodge (e seu filho) é uma das figuras do protestantismo que estou começando a admirar mais e mais.

Não é todo "cristão" que aceita ir contra a maré e à favor da Palavra de Deus. Ao contrário! Todo aquele que vai contra o mundo e o ecumenismo é tido como "intolerante", "fanático religioso" ou até "incrédulo"...

Parabéns pelo post.

Deus abençoe!

Ricardo Mamedes disse...

Grande irmão Neto!

Já nos encontramos várias vezes lá no "Cinco Solas", no entanto eu nunca antes havia sentido o prazer da sua visita a este humilde blog. Sinta-se bem-vindo, as 'portas' estarão sempre abertas. Sem contar que temos um amigo comum, que é o Esli.

Deus o abençoe.

Ricardo

Esli Soares disse...

Meus caros amigos...

Além de atual (pois essa tentativa de ecumenismo nunca deixou as raias vaticanas, e que hoje, com as patacoadas da turminha evangelical* beira o arraial cristandade brasileira) a carta do C.Hodge ao Papa, serve-nos com exemplo de caráter cristão. Não obstante a clara desconsideração da "autoridade papal", e da incisiva reafirmação da Fé Reformada, Hodge, magistralmente, responde (nas entrelinhas – ou talvez nas linhas) quem é realmente a Igreja de Cristo e quem são os verdadeiros cristãos. Mas a lição não para aí (nem é somente para os ‘ecumenistas’ – bem como aos romanistas), há lições para nós, o espírito manso, o respeito e a humildade, extremamente evidentes no texto, devem ser a forma com que tratamos os hereges (não tenho dúvida desse adjetivo não boca dos Hodge ao se referirem ao papa, os romanistas e etc.). Não há desrespeito e nem ofensas, e para terminar há ainda uma ‘doxologia convidativa-inclusiva’, basta apenas crer em Cristo (mas tem que crer mesmo! “Consideramos como irmãos em Cristo todos aqueles que O adoram, O amam, e O obedecem como seu Deus e Salvador”), para que o Hodge chame de irmão, orando e os abençoando, ou seja, mostrando sua disposição em (se) unir (sob a égide da Verdade) e não sua proposta de sectarismo.


Na paz,

Esli Soares

* Todo esse que são permissivos (relativização do bom costume e da moral em nome do “amor”), todos que idolatram aos ícones gospel, todos os que buscam uma verdade além (na realidade, aquém) da Bíblia, todos os insubmissos, profanos e covardes que em nome de uma política da “boa vizinhança” não declaram a sua fé em Cristo (muitas vezes nem a tem).

Esli Soares disse...

Entrem nesse blog:
http://protestantecalvinista.blogspot.com/2010/04/quem-sao-os-pais-da-igreja-catolica.html#comment-form

Jorge Fernandes Isah disse...

Pr. Esli,

o texto é realmente muito bom. Mais do que uma resposta ao Papa [do alto do seu "trono" estaria ele interessado em ouvir a verdade?], serve para reforçar a fé dada uma vez aos santos.

Vivemos realmente tempos difíceis, em que os homens estão dispostos a tudo para justificar suas loucuras, até mesmo renegar a Escritura. E, ainda que digam da boca para fora que a Bíblia é a única regra de fé, eles estão dispostos a produzir uma gama enorme de "novas" regras, com tantos pretextos humanísticos quanto é possível a mente caída idealizar. Vão desde contextualizações culturais até fenômenos espirituais. Enquanto isso a Palavra, a santa e bendita palavra de Deus, é desprezada e colocada de lado, ou simplesmente mal-interpretada intencionalmente para satisfazer a corrupção da mente.

Abraços.

Filipe L. C. Machado disse...

Excelente artigo!

Além de lermos artigos como este, seria de grande valia se todos tivessem e lessem a teologia sistemática escrita pelo autor.

Um abraço e desculpe a demora por aparecer aqui!

Filipe - 2timoteo316.blogspot.com

NICODEMOS disse...

Paz seja convosco

mesmo decorridos 150 anos percebe-se a atualidade da questão das heresias mescladas à piedade e a fé em Deus.

Ceder um milimetro ja é perigoso e comprometeria a edificação da igreja em cristo. Imagina hoje que muitos lideres evangélicos só faltam vestir uma batina, ou acender um charuto e quem sabe um culto no "terreiro".

Permaneçam na Graça e que frutifiquem nela

atalaiadocastelo.blogspot.com

Nicodemos

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