segunda-feira, 17 de maio de 2010

Jesus e o Cristo Kerygmático



O liberalismo é mais um 'fermento' que veio confundir as mentes dos homens, não sendo, porém, um evento moderno, uma vez que no final do século XIX muitos autores já começavam a esmiuçar a existência do Cristo divino, dissociando-o do Jesus histórico. Afinal, perguntam eles, o Jesus dos Evangelhos existiu mesmo, ou foi apenas um mito, uma ideologização dos seus discípulos? Dizem eles que não, pois 'o Jesus histórico serve apenas para obscurecer a nossa visão com relação ao Cristo vivo encontrado na Bíblia". Afinal, a pergunta que teimava em aflorar (e ainda teima para alguns liberais de hoje) é se o Jesus histórico é o mesmo Cristo Kerygmático (divino), ou se isso foi apenas uma "transformação feita pelos seus seguidores".

A partir desse pensamento liberal e agnóstico, relativiza-se os escritos neotestamentários a respeito do nascimento virginal de Jesus (encarnação) , a filiação divina, a sua morte e posterior ressurreição ao terceiro dia. Muitos sábios do liberalismo colocam nessa "dúvida crônica" , sobre a descontinuidade histórica de Jesus e do Cristo Kerygmático, a culpa sobre o 'estágio oral da tradição do Evangelho". Em razão disso, dizem eles, foi possível construir o mito do Jesus histórico como sendo o Cristo Divino, messiânico, o Filho de Deus. Em suma, aquele Jesus descrito no Evangelho não seria o Cristo messiânico. Vejamos o que diz um dos mais "brilhantes" expoentes do liberalismo,

A ESCOLA BULTMANNIANA - "Os expoentes da escola "Kerygmática", assumem que o Cristo proclamado no Kerygma manifesta continuidade com o Jesus histórico (fato no qual eu creio convictamente). O fator Kerygmático é o elemento interpretativo que necessariamente acompanha o evento. Esta posição tem sido radicalmente rejeitada pelo mais destacado alemão e erudito na área do Novo Testamento - Rudolf Bultmann. Bultmann também pode ser classificado como um teólogo Kerygmático, mas ele usa o conceito de Kerygma e Geschichte de um modo bem diferente de outros teólogos da mesma linha. O Jesus histórico, para Bultmann, tem sido bem obscurecido pela influência formativa da tradição da fé, a qual reinterpretou o significado do Jesus histórico em termos de mitologia. Historicamente, Jesus foi considerado como sendo apenas um profeta judaico que proclamou o fim apocalíptico iminente do mundo e advertiu o povo a preparar-se para a catástrofe presente no dia do juízo. Ele não se imaginava nem como Messias nem como Filho do homem. Entretanto, ele possuía um surpreendente sentido acerca da realidade de Deus , e compreendeu que era o portador da Palavra de Deus para os últimos dias, cuja palavra confrontava os homens para a exigência da decisão. Sua morte foi uma tragédia incomparável, a qual, no entanto, foi salva da ameaça de perder o seu significado pela fé cristã em sua ressurreição. A igreja primitiva reinterpreta a pessoa de Jesus primeiro em termos da concepção apocalíptica judaica do Filho do homem, e posteriormente em termos de uma junção da concepção apocalíptica do Filho do homem e do ser celestial gnóstico. Todos estes elementos, entretanto, constituem-se no Kerygma mitológico, através do qual a igreja primitiva reinterpretou o significado de Cristo para os seus adeptos. O Kerygma, ou seja a proclamação de Cristo feita pela igreja primitiva é um fato histórico na vida do cristianismo primitivo, e, consequentemente, verifica-se uma continuidade entre o Jesus histórico e o Kerygma. Foi Jesus quem deu origem ao Kerygma. Se Jesus não tivesse existido, não haveria Kerygma. No entanto, o Cristo proclamado no Kerygma é uma elaboração puramente mitológica, e não teve existência na história, pois a mitologia, por definição, não é histórica. Consequentemente, não pode haver continuidade entre o Jesus histórico e o Cristo do Kerygma. O Kerygma é a expressão do significado que Cristo teve para os cristãos primitivos, formulado em termos mitológicos" [1].

Em suma, esse tal Bultmann, expoente do liberalismo, declara que o Jesus que foi descrito pelos apóstolos, especialmente pelo evagelista Marcos no Novo Testamento, era apenas um embuste urdido pelos seus seguidores. Portanto, segundo a sua visão distorcida, não há continuidade entre o Jesus do Novo Testamento e o Cristo (Messias) Kerigmático. Jesus era apenas um homem, instrumentalizado por Deus para trazer a Palavra escatológica, porém, não o Filho de Deus; não o Cordeiro que possibilita a salvação de tantos quantos neles crerem. O Evangelho mente: Jesus é apenas uma "figura mitológica" construída pelos cristãos do primeiro século. Não houve ressurreição. Eles não conseguem apreender ou imaginar a figura da justificação. Perguntam eles: como pode a morte de um somente, salvar a tantos? Os liberais, secundados pela teoria de Bultmann, não admitem a morte substitutiva de Jesus Cristo na cruz, tampouco a sua ressurreição.

Uma coisa é certa, o liberalismo 'teológico' capitaneado pelo alemão Bultmann apenas reforça ainda mais fortemente a obra de Cristo na Cruz, na medida em que somente pela fé se chega a Ele. Segundo Hebreus 11, a fé é a crença naquEle que não se vê. É a certeza de que Jesus de fato veio a esta terra e morreu pelos seus, tornando-os aceitáveis ao Pai. Sem isso, não haveria qualquer possibilidade de salvação.

Sim, eu creio firmemente que Jesus não é uma figura mitológica qualquer, urdida por mentes humanas, mas o Filho de Deus feito carne, morto e ressurreto pelos meus e pelos seus pecados. Jesus é o maior presente que Deus-Pai nos ofereceu a fim de que pudéssemos aspirar a Sua presença após a ressurreição. Somos escolhidos, eleitos de Deus e justificados por Cristo na cruz do calvário. Logo, não há dúvida de que o mesmo Jesus retratado nos evangelhos é o Cristo, o Messias a que Isaías fez menção em seu Livro, no Capítulo 53: 1-12.

Eis que a partir do momento em que se relatiiviza a existência de Jesus como sendo o Cristo de Deus, relativiza-se toda a Bíblia. E assim, não há como se pressupor a existência nem de Cristo, e tampouco de Deus, pois ambos se revelam exclusivamente pela Bíblia, através da graça, mediante a fé (Efésios 2:8-9).

Mediante tal assertiva, não consigo enxergar os liberais como sendo cristãos, mas uma espécie de ateus, ou agnósticos, que não foram agraciados com a Revelação salvífica.

Que Deus tenha piedade deles, pois a Palavra servirá para a sua condenação no dia do Juízo, quando todas as obras dos homens serão reveladas, tanto as boas quanto as más.



Ps: Pois é meu caro amigo Pr. Adriano, como vê, já usei o seu presente (livro) nesta pequena postagem.



[1] LADD, George Eldon, "Teologia do Novo Testamento", 2ª edição, Ed. JUERP, 1986, RJ.


9 comentários:

Fernando Isidoro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Fernandes Isah disse...

Ricardo,

tenho o livro do George Ladd, mas é uma entre tantas leituras fundamentais que ainda não fiz, e se Deus quiser, farei.

Os adeptos da "desmitologização" pecam, entre muitos pecados, por seguirem a própria mente caída, ao invés de se renderem à revelação especial. Fico a pensar em que bases, além da descrença, eles chegaram às suas conclusões. Os teólogos liberais não têm nada de racionais, científicos e lógicos: usam como base, como plataforma da sua doutrina a descrença na fé bíblica. Mas o que os levaria a tal crença? (a descrença no Cristianismo Bíblico é uma fé defeituosa no anticristianismo bíblico). A impiedade e rebeldia levadas às últimas consequências. Por isso, a busca pelo Jesus histórico; porém, a rejeição ao texto bíblico não os impediu de crerem em outras fontes cujos autores tiveram seus pressupostos e premissas também. Por que então não os rejeitaram igualmente? Porque eles se adequam, estão consoantes, ao pensamento ímpio e diabólico dos teólogos liberais.


A questão é de fé: deixam de crer no Deus bíblico, para crerem nos deuses humanos. É sempre a mesma coisa, o mesmo artíficio, os mesmos motivos, com os mesmos objetivos: substituir Deus por seus ídolos, ao aniquilar intelectualmente qualquer tipo de fé na Palavra de Deus.

Outro livro que indico sobre o tema é "Cristianismo e Liberalismo", de J. Gresham Machen, publicado pela Editora Os Puritanos.

Cristo o abençoe!

Abraços.

Adriano Nazareth disse...

Pois é, amado irmão Ricardo, quando bati o olho na sua postagem, já percebi que se tratava de um trecho do livro do Ladd. Que bom que está sendo útil pra você! Um grande abraço, e lembre-se que, apesar de raramente tecer algum comentário, sempre estou por aqui. Deus continue o abençoando!

Ricardo Mamedes disse...

Jorge,

Você matou a charada: os liberais partem de uma pressuposição errônea da 'busca pelo Jesus histórico", dissociando-o do Cristo bíblico. É a mesma coisa de pressupor na não-existência de Deus, por não haver qualquer prova histórica sobre a sua existência. Partindo desse 'pressuposto negativo", em que acreditar?

Portanto, a fé prescinde de prova científica histórica. Não há necessidade de se comprovar arqueologicamente os restos de Jesus, tampouco relatos históricos sobre a sua passagem neste mundo, os seus milagres e o seu ministério para que possamos acreditar. A nossa fé está na revelação. Cremos que Cristo de fato é o Filho de Deus e aqui esteve na pessoa de Jesus relatado nos Evangelhos, porque a Bíblia assim afirma. Portanto, repito, os tais liberais não creem nesse fato porque carecem da revelação salvífica, permanecendo na sua condição decaída e miserável. Concordo plenamente com o comentário do irmão!

Em Cristo,

Ricardo.

Ricardo Mamedes disse...

Caríssimo Pastor Adriano, amado irmão!

Pois é, logo que cheguei em casa comecei a ler o livro e estou apreciando sobremaneira! Há uma grande profundidade nos textos. Livros como esse deveriam ser lidos por todos os cristãos, certamente se evitaria um amontoado de besteiras e crendices que estão sendo disseminados e absorvidas por tantos evangélicos por aí.

Espero ainda escrever vários outros textos citando trechos deste ótimo livro, grande presente do irmão, a quem aproveito para agradecer publicamente.

Como eu afirmei aí em sua casa pessoalmente, possíveis diferenças doutrinárias (mínimas) não devem ser motivo para afastamentos, mas, antes, para discussões construtivas, diálogos abertos, "regados" exclusivamente pela Palavra de Deus. Aliás, é unicamente a Ele que devemos dar graças, "quer comamos, quer bebamos ou façamos qualquer outra coisa". Tudo para a Sua glória!

A minha oração é que cada vez mais eu reconheça que nada há de bom em mim, senão aquela parte presenteada por Deus (graça), cujo mérito não é meu. Se erro, se sou persuasivo às vezes, faço-o em defesa da Palavra sã, da doutrina de Cristo.

A verdade meu irmão, é que não somos nada bons, mas somente aceitáveis em razão da misericórdia de Deus e da Excelência de Cristo.

Continuamos orando por você e pela sua família, agradecendo a certeza das suas orações por nós.

Que Deus te ilumine verdadeiramente, que a verdade da Sua Palavra esteja contigo, que o discernimento espiritual vindo dos altos céus lhe seja constante, a fim de que o seu ministério pastoral edifique o rebanho e o convide à salvação pela graça, mediante a fé em Cristo Jesus!

Grande abraço!

Ricardo

Jorge Fernandes Isah disse...

Ricardo,

acontece que a Bíblia é um documento também histórico. O problema é que os teólogos liberais não a consideram histórica, em detrimento de outras fontes que consideram históricas. Mas, fica a pergunta: por que a Bíblia não é, e as demais são? Porque a Bíblia confronta as suas mentes caídas e irregeneradas, e é impossível para eles encontrar nela qualquer veracidade, exatamente por expor suas mentiras e impiedade.

Ao passo que, textos absurdos como os apócrifos, têm um valor histórico maior do que a Escritura. É essa irracionalidade travestida de racionalidade que me espanta. E a base que eles têm para a descrença é nenhuma além do que agrada às suas próprias mentes, aos seus desejos escusos.

Abraços.

cristianismopensante disse...

Ricardo,

Bultmann conseguiu inventar moda, conseguiu deixar muita gente confusa, mas no fim da vida ele assumiu que não tinha conseguido o que de fato queria... encontrar o Jesus por trás do mito.

Belo Texto.

Me add no msn e talvez a gente troque links e banners para divulgar os nossos blogs!

Abraço

sem.maicon.ipb@hotmail.com

NICODEMOS disse...

Paz seja contigo

Realmente a pergunta de Jesu fita a Pedro ecoa na vida de muitos. Qum dizemos ser Jesus?

Eu só posso concordar com Pedro e com a multidão de Testemunhas que experimentaram e experimentam hoje da maravilhosa Graça de Deus

Jesus é o Cristo, nosso Senho e Salvador.

Permaneça na Graça e nela frutifique

Seja bem vindo em meu blog e se puder ser edificado na Palavra

atalaia do castelo.blogspot.com

Nicodemos

Antonio Carlos N. da Cruz disse...

Ao Nobre Ricardo e aos demais comentadores.

Apesar de não concordar com muito do que escreveu Rudolf Bultmann, percebo que se lhe atribui muitas idéias e conceitos que não lhe são próprios tal como os arminianos fazem com a doutrina de Calvino.

Já lí diversos escritos de Rudolf Bultmann e outros da escola bultimanniana como Jürgem Moltmann Joachin Jeremias e Milton Shwantes, (embora ache este último bem mais liberal).

Uma análise direta aos escritos de Bultmann pode contrariar muito do que se fala a seu respeito nos seminários de teologia, por instrutores que tem por missão primordial defender sua linha teológica como se fosse a única correta, desconsiderando dessa forma as diversas propostas a serem avaliadas.

Rudolf Bultmann não queria encontrar Jesus no mito, ao contrário, ele queria demitificar a seu personagem e apresentá-lo aos seus contemporâneos em uma época em que a Igreja Católica estava perdendo o "monopólio da fé e da salvação", como também a Ciência começava a dar um grande salto rumo a evolução.

Os homens criticavam tudo, queriam respostas que fossem além do senso comum. Bultmann, como um bom leitor de sua época, conseguiu sintonizar os anseios de seus contemporâneos com a mensagem do Novo Testamento através de seu processo de demitologização.

lembro-vos de Dietrich Bonhoeffer e seu legado de fé e dedicação a Deus (procedente da escola Bultmaniana). Se a obra de Bultmann fosse de fato todo esse bicho papão que está sendo pintado aqui, tanto no artigo quanto nos comentários, certamente não teria tantos servos de Deus procedente da escola bultimaniana comprometidos com o real sentido de Basiléia.

Bultmann não levantou bandeira do liberalismo, mas se opôs a ele.

Sugiro a leitura de livros de sua autoria para que se entenda de fato a missão de Bultmann:
Jesus e a Mitologia, Milagre, Demitologização, Teologia do Novo testamento.
Livros de Jürgem Moltmann: Teologia da Esperança, God, for a secular society, O caminho de Jesus Cristo, A fonte da Vida.

E os livros de Joachin Geremias e Karl Barth.

Um grande problema na maioria dos seminários, é que colocam viseiras nos seminaristas impedindo que avancem nos estudos e no conhecimento desprovido de preconceitos. Isso acontece em quase todos so seminarios: os que defendem o arminianismo levantam apenas pontos "ruins" do calvinismo; quando não atribui a Calvino e ao Calvinismo coisas quem nem ao menos se vê nas Institutas e tampouco nos escritos de Calvino.

Da mesma forma acontece com boa parte dos calvinistas em relação ao arminianismo; com o liberalismo em relação ao fundamentalismo e assim por diante.

Teologizar é também pensar. Uma boa leitura de outras propostas pode ampliar nossa visão e fortalecer nossa cosmovisão.

No mais, parabéns pelo blog!

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